Costumes Bíblicos: AS TRÊS FASES DA TENTAÇÃO

Israel Institute of Biblical Studies

AS TRÊS FASES DA TENTAÇÃO

Outro ângulo do Monte da Tentação
AS TRÊS FASES DA TENTAÇÃO
Jesus passou quarenta dias e quarenta noites naquele horrível deserto, sem fazer nenhuma refeição. Durante esse longo período, viveu unicamente submerso inteiramente em Deus, rogando por aqueles que havia de salvar, contemplando, antecipadamente, as diferentes fases do Seu ministério que estava prestes a ser exercitado. Jesus viveu em um êxtase contínuo, durante o qual as necessidades do corpo dEle foram milagrosamente satisfeitas. Mas, de repente, quando a natureza assumiu imperiosamente seus direitas, Ele sentiu no estômago o aguilhão da fome.
Nesse momento, propício para a tentação por Jesus estar debilitado, foi que Satanás se aproveitou para estender diante do Filho de Deus o primeiro laço. O evangelho nos mostra o príncipe dos demônios aproximando-se de maneira sutil, muito provavelmente sob a forma humana. Os diferentes nomes que os escritores sagrados dão ao inimigo são os mesmos que ele recebe em outras partes da Bíblia: Satã (palavra hebraica que significa adversário), diabo (ou caluniador) e tentador.
Cada um desses qualificativos aponta nele o merecido estigma e destaca sua grande maldade. Inimigo e invejoso como ele é de Deus e dos homens, que triunfo não alcançaria se tivesse conseguido vencer o Salvador! Em seu triplo assalto contra Cristo, o diabo manifesta toda a sua astúcia e toda a sua habilidade.
Contra com a fome que o Salvador estava sentindo, Satanás lançou mão desse fato para desferir o primeiro golpe: Se tu és o Filho de Deus, manda que pedras se tornem em pães (Mt 4.3). Ao falar deste modo, Satanás certamente apontava para as pedras com o dedo, ou, talvez, tivesse em sua mão algumas das incontáveis pedras que cobrem a superfície do deserto.
A expressão provocadora Se tu és o Filho de Deus, que foi duas vezes usada pelo tentador em suas pérfidas sugestões, mostra que, até certo ponto, o diabo conhecia a natureza e a missão de Jesus. Pouco antes, no batismo de Nosso Senhor, a voz do Pai havia falado com suficiente clareza para confirmar o Filho, e talvez o diabo e os seus demônios tivessem escutado. Em todo caso, o inimigo sugeriu que Jesus buscasse uma certeza maior. Aquelas palavras provocadoras - Se tu és - foram escolhidas intencionalmente para tocar, de maneira intensa, no amor-próprio daquele a quem tentava para a queda.
Satanás, com aquela primeira tentação, queria fazer Jesus utilizar, em Seu interesse pessoal e sem necessidade, o dom de realizar milagres que, sem dúvida, fora concedido a Ele como o Messias. Por que o Filho de Deus haveria de sofrer fome como um simples mortal naquele desolado deserto quando tão fácil lhe seria providenciar, apenas com uma única palavra, um alimento nutritivo?
A sugestão era muito sagaz, e Satanás foi extremamente hábil ao proferi-la. Se Jesus tivesse dado ouvidos ao diabo, teria subordinado, pelo menos momentaneamente, Sua natureza divina às necessidades de Sua natureza humana, colocando essa natureza acima da natureza divina, transformando o divino em um meio para satisfazer o humano. Teria, consequentemente, invertido a ordem estabelecida por Deus. Mas o Salvador rejeitou energicamente esse primeiro ataque.
Evitando responder à insinuação contida nas palavras Se tu és o Filho de Deus, Jesus se contentou tão-somente em replicar: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (Mt 4.4). Por três vezes, Jesus lançaria mão, para vencer os ataques do demônio, da acertada e invencível espada que é a Palavra de Deus (Ef 6.17; Hb 4.12). A primeira resposta de Jesus às investidas de Satanás foi extraída de Deuteronômio 8.3, que se refere ao grande milagre do maná.
Depois da saída do Egito, os hebreus ficaram expostos à fome durante suas peregrinações pelo imenso deserto, para fugir de Faraó. Mas Deus não os desamparou. Apenas com uma palavra de Sua boca criadora e onipotente, o Senhor concedeu ao Seu povo, e isso em abundância, um alimento maravilhoso, que sustentou as forças dos israelitas pelo espaço de quarenta anos (Êx 6.1-36; Js 5.12; Sl 78.23-25).
Por que, pois, Jesus, que se achava em circunstâncias semelhantes às dos israelitas, haveria de realizar um milagre egoísta, contrário à ordem divina? Considerando-se que Deus conhecia as necessidades de Seu Filho, não deixaria certamente de remediá-las no tempo oportuno.
Sem se mostrar desconcertado diante de sua primeira derrota, o tentador sentiu-se estimulado a fazer nova investida, diferente da anterior, que consistiu em propor a Jesus um abuso mais profano de Seu poder de realizar milagres.
Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo,
E disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra.
Mateus 4:5,6
O Salvador tolerou que Satanás o transportasse até Jerusalém. Da mesma maneira, permitiria , quando chegasse o tempo de Sua Paixão, que o traidor Judas o entregasse com um beijo aos seus inimigos, e também que estes o golpeassem e cuspissem no seu rosto. Permitiria que os legionários de Pilatos o açoitassem e o crucificassem. Todas estas humilhações faziam parte do plano divino, ao qual Jesus se sujeitou humildemente.
Não é possível assinalar com certeza o local exato que Mateus e Lucas chamam de pináculo do Templo, sobre o qual Satanás colocou Jesus. Pela expressão que os evangelistas empregaram, deduz-se que não se tratava do santuário propriamente dito, mas, sim, do templo no sentido amplo, de todo o conjunto das construções que o compunham. Tem-se pensado especialmente no Pórtico de salomão e no Pórtico Real, que se erguiam, o primeiro, na parte oriental, e o segundo, na parte meridional do edifício sagrado.
Do Pórtico Real, escreveu Josefo que quem, desde o alto, olhasse para baixo, contemplava um abismo tão profundo que causava vertigem. O próprio historiador Eusébio de Cesareia, em sua História Eclesiástica, conta também, mesmo não indicando exatamente o lugar, que, do pináculo do templo, Tiago, irmão de Jesus, foi precipitado mais tarde pelos judeus.
A tática diabólica, mesmo sendo sempre a mesma, tenta aperfeiçoar-se. O tentador, que acabara de comprovar a força de uma citação bíblica apresentada oportunamente por Jesus, atreveu-se a usar a Palavra para justificar sua odiosa proposta. Então, lançou mão do Salmo 91.11,12.
Essa passagem bíblica expressa com graça encantadora os cuidados (que bem podemos chamar de maternais) de Deus com os justos, seus fiéis amigos. O Eterno ordena aos Seus anjos que tomem os justos delicadamente pelas mãos, a fim de afastá-los do perigo. Logo, com maior razão, os anjos haveriam de proteger Jesus Cristo. Então, por que Jesus não poderia lançar-Se no abismo? Longe de causar a Si mesmo algum dano, com este inaudito milagre o Filho de Deus impressionaria os judeus, que andavam, a todo momento, pelos pátios do Templo e, ao mesmo tempo, seria aclamado como esperado libertador, como o Messias diretamente descido do céu. Jesus, no entanto, respondeu imediatamente não à proposta do tentador e justificou Sua recusa: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus (Mt 4.7).
O Salvador sabia que os justos, de fato, serão socorridos quando em perigo. Todavia, Deus não prometeu vir em sua ajuda quando eles se expusessem ao perigo por temerária presunção, conforme Satanás estava propondo a Jesus. Proceder deste modo seria tentar a Deus. Seria colocá-Lo, com arrogância, à prova. Seria exigir, por capricho, que Ele renunciasse aos sábios desígnios de Sua providência. Seria "forçar" Deus a operar milagres estupendos para remediar os danos de nossas loucuras.
A segunda resposta que Jesus deu ao diabo também foi tomada do livro de Deuteronômio (6.16). Moisés havia usado esta linguagem para repreender as injuriosas murmurações dos israelitas quando estes haviam tentado ao seu  Deus, na ocasião em que, padecendo sede no deserto, exigiram imperiosamente que Deus realizasse um milagre. Contudo, não aconteceu assim com Cristo. Ele se privou muito bem de realizar o ato pecaminoso que o diabo lhe propôs. À primeira sugestão satânica, Jesus respondeu afirmando Sua perfeita confiança em Deus, que não lhe deixaria morrer de fome. Depois, Ele refuta a segunda tentação declarando que não se exporá nesciamente ao perigo por uma presunção gravemente culpável. Quando chegasse a Sua hora, Jesus enfrentaria a morte sem temor e vacilação. Mas somente ganhando os corações e convencendo as mentes, o Messias comprovaria Sua missão celestial.
Em seguida, conforme o relato evangélico: Novamente, o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares (Mt 4.8,9).
Várias tentativas têm sido feitas para determinar qual foi o monte de cujo cume Satanás mostrou ao Salvador tantas maravilhas. Alguns estudiosos declaram que teria sido o Tabor; outros, o Nebo. Mas a elevação de ambos não é tão grande que possa justificar a expressão um monte muito alto da descrição de Mateus.
Além disso, qualquer que fosse o monte, não seria possível contemplar realmente do seu cume todos os reinos do mundo, ainda que a significação dessas últimas palavras seja consideravelmente restrita. É, pois, provável que Satanás, por magia, fizesse passar diante dos olhos e da imaginação do Nosso Senhor, em grandioso e admirável panorama, as belezas da natureza e da arte, as cidades com seus palácios, os exércitos e as turbas, as riquezas materiais - tudo que constitui a glória do mundo. O texto de Lucas favorece esta opinião, pois diz que lhe mostrou tudo num momento de tempo (Lc 4.5), ou seja, a maravilhosa visão não demorou mais que um instante.
Crendo Satanás haver deslumbrado Jesus com este espetáculo grandioso, disse-lhe: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu (Lc 4.6,7). O demônio usou uma linguagem atrevida e soberba, mas falsa em grande parte, porque ele não possui tal autoridade sobre o mundo e muito  menos pode dar os reinos a quem bem quiser. Mas sua afirmação também não é totalmente mentirosa, devido ao fato de que o próprio Deus tolera que o diabo exerça governo sobre os negócios dos homens que se entregam à sua influência, à sua diabólica direção. E, deste sentido, o próprio Jesus referiu-se a Satanás como príncipe deste mundo (Jo 12.31; 14.30), Paulo o chamou de deus deste século (2Co 4.4; Ef 2.2).
Existe, pois uma mistura de mentira e de verdade na atrevida proposta feita por Satanás a Jesus. Com que arte o inimigo enaltece o valor dos bens cujo gozo pleno e imediato oferece ao Salvador! Mas tal oferta está muito distante de ser gratuita. Para que Jesus consiga este "favor", o tentador exige uma condição monstruosa e verdadeiramente diabólica: que o Messias se prostre aos pés dele e manifeste, de acordo com o costume oriental, sua absoluta submissão a ele, o diabo, o soberano de cujas mãos Jesus viria a receber poder [se o adorasse como deus}. Que vil tentador!

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