COSTUMES BÍBLICOS: maio 2019


JESUS, o ódio fanático dos fariseus e dos escribas e a blasfêmia contra o Espírito Santo

Jesus refuta a calúnia infame dos fariseus e dos escribas

O relato evangélico não nos deixa desfrutar por muito tempo da dulcíssima impressão da cena que precede a representação da Igreja em seu berço. Os sentimentos ruins de alguns parentes do Salvador e o ódio fanático dos fariseus vão ocasionar dolorosos incidentes. Contudo, estamos ainda no período dos grandes triunfos de Jesus, e as multidões judaicas, cada vez mais afeiçoada à pessoa dele, continuam recorrendo ao Mestre aonde quer que leve o seu zelo, não lhe permitindo descanso em nenhum momento. Somente Marcos conta o primeiro destes fatos dolorosos, mas em termos tão concisos que é difícil esclarecer o significado de todos os pormenores.
Certo dia, porém, quando Jesus entrava em Cafarnaum com seus apóstolos, para partir em seguida em outra direção, a casa em que se hospedava foi invadida por uma enorme multidão, que já se encontrava ali há muito tempo, ávida por ouvir sua palavra e solicitando sua poderosa bondade. Por conta disso, nem Jesus nem os apóstolos puderam dispor de um tempo para ingerir algum alimento. Vejamos o que diz o texto em Marcos 3.20,21: E foram para uma casa. E afluiu outra vez a multidão, de tal maneira que nem sequer podiam comer pão. E, quando os seus parentes ouviram isso, saíram para o prender, porque diziam: Está fora de si.
A expressão sequer podiam comer pão, usada pelo evangelista, é um hebraísmo que indica que tanto no Oriente como entre nós, ocidentais, o pão constitui o principal alimento (Gn 3.19; 31.54; 43.16; Êx 2.20; Jr 41.1). Em outra ocasião, o ajuntamento de pessoas colocou Jesus e seus discípulos em situação parecida (Mc 2.1,2), ainda que menos complicada.
Incidente semelhante há de se repetir por várias vezes (Mc 6.39) durante todo o período da vida pública do Salvador, que não ouvia outra voz senão a que vinha do céu e cumpria com alegria suas próprias palavras: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra (Jo 4.34).
Alguns, a quem o evangelista Marcos se refere como parentes de Jesus, que poderiam ser familiares ou até simples discípulos, inteirados do que estava ocorrendo, apareceram de repente, com o propósito de apoderar-se de Jesus à força e lavá-lo consigo. Para justificar esta intervenção violenta, se atreveram a dizer: Está fora de si (Mc 3.21) - expressão que, na tradução da Vulgata ultrapassa o significado grego, que não indica necessariamente uma loucura plena. Como explicar semelhante cena?
Tinha razão o sério Maldonado quando dizia que admitir um sentimento de piedade nessa situação, de certa maneira louvável, porém indiscreto, longe de facilitar a interpretação, acrescenta dificuldade.
Assim, alguns antigos comentaristas põem a ultrajante frase está fora de si nos lábios dos fariseus e dos escribas, inserindo-a no lugar de seus parentes. Outros dão ao verbo diziam o significado impessoal se dizia, que não é totalmente estranha a Marcos (Mc 3.2). Mas a exegese atual rejeita justamente essas interpretações, que violentam o texto e não conduzem a lugar algum. Antes, deixando o significado natural do texto, esforçam-se simplesmente em explicar a fórmula, algo ambíguo, seus parentes.
Essa expressão, segundo temos dito, pode ser uma referência aos próprios discípulos de Jesus, em um sentido mais amplo, ou aos membros da família dele. A primeira hipótese, admitida por vários exegetas, protestantes ou racionalistas, tornaria a situação menos odiosa, e tem em seu apoio o próprio texto do relato, que nos mostra os recém-chegados saindo de suas casas para se aproximarem de Jesus e se apoderarem de sua pessoa.
Pois bem, se este incidente ocorreu em Cafarnaum, nada prova que ali houvesse membros da família de nosso Senhor Jesus Cristo. Seus parentes viviam em Nazaré, e não daria tempo para que chegassem de tão longe. Mas, não obstante isso, podemos, com a maior parte dos intérpretes antigos e contemporâneos, interpretar seus familiares como sendo a família do Salvador, sem ir contra o pensamento do evangelista. Temos a condição de distinguir entre alguns vulgares insultadores e a mãe de Jesus e seus irmãos, que logo hão de fazer-lhe uma visita afetuosa (Mt 12.47-50; Mc 3.32-35;Lc 8.20,21).
Não nos diz expressamente João (7.5), mais adiante, que nem os irmãos de Jesus criam nele, não aceitavam seu ministério, ou quando muito o entendiam de modo bem distinto? Por mais triste que seja, não deveria causar assombro o procedimento exposto por Marcos, ainda que de forma extremamente reduzida, nem o pretexto injurioso com que alguns tratam de legitimar o fato.
Seja como for, não consta que aqueles homens, apesar de sua linguagem rude, tivessem se aproximado de Jesus com intenções hostis. Inquietava-lhes toda aquela agitação em torno do Mestre. Ainda mais porque sabiam que se haviam levantado muitos inimigos contra Jesus e, por conta disso, temiam que o descontentamento desses inimigos pudesse recair sobre toda família do Salvador. Toda essa situação os deixou perplexos, e é possível que, de comum acordo, tivessem preparado esse expediente extravagante, para livrar mais facilmente Jesus dos perigos que o ameaçavam.
Pouco depois, conforme Mateus e Lucas mencionam (Mt 12.22,23; Lc 11.14), levaram a Jesus um endemoninhado cego e mudo. Jesus expulsou o demônio e, prontamente, o enfermo recobrou a visão e a fala, já que, nesse caso, a cegueira e a mudez eram motivadas pela possessão demoníaca, enão por doenças naturais, físicas.
Assim, foram operados, ao mesmo tempo, três milagres. Esta libertação teve muitas testemunhas, que puderam comprová-la. E toda a multidão se admirava (Mt 12.23a), observa energicamente Mateus, citando algumas exclamações das pessoas: Não é este o Filho de Davi? ou seja, o Messias?
Contudo, a multidão, não conseguindo resolver uma situação tão delicada, permanecia indecisa, sem atrever-se a responder afirmativamente, porque Jesus, apesar de sua santidade, de seus milagres e de poderosa doutrina, não se enquadrava na falsa idéia que seus compatriotas haviam formado do redentor de Israel.
Alguns fariseus ou escribas, infiltrados entre os ouvintes - vários deles tinham vindo expressamente de Jerusalém para espiar e criticar Jesus -, cegos de ódio, sem consciência, em vez de extrair do tríplice milagre uma conclusão favorável ao pregador, não se envergonharam de proferir contra Jesus uma acusação insensata, que era, ao mesmo tempo, uma calúnia infame: Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios (Mt 12.24).
Com essas palavras, podemos perceber que eles não estavam negando o milagre, por mais vantajoso e fácil que isso lhes teria sido; antes, seu objetivo era acusar Jesus de impostor. A interpretação que deram, se fosse aceita, lançaria por terra a autoridade, cada vez maior, de Jesus.
De fato, nosso Senhor possuía poder sobre os demônios, mas, segundo aqueles homens perversos, o poder de Jesus provinha do próprio príncipe dos demônios, e não de Deus. Quanto mais violenta fosse a acusação, maior probabilidade tinha de provocar nas multidões, sempre crédulas, o efeito moral que os caluniadores esperavam.
Hebrom, cidade do tempo dos patriarcas
na qual Herodes realizou
muitas obras arquitetônicas
Não é relevante a discussão que causou o nome de Belzebu, cuja pronúncia, origem e significado exato são incertos. Basta-nos dizer que era um apelido desdenhoso com que os judeus designavam ironicamente Satanás. Em nenhuma outra parte da Bíblia, além dos evangelhos, esse nome é aplicado ao demônio.
Se aceitarmos a ortografia Beelzebud - ou ainda Beelzebûd - na Vulgata, na versão siríaca e em alguns manuscritos gregos, este nome significaria deus das moscas, designação irônica de um ídolo adorado pelos antigos filisteus de Ecrom (2Rs 1.2,3). Mas como na maior parte dos manuscritos gregos se prefere ler Beelzebul, o sentido então seria senhor do lixo, do esterco; ou, segundo outros, ainda que com menos probabilidade, dono da habitação (infernal). Em qualquer hipótese, era um apelido injurioso que se aplicava a Satanás enquanto príncipe de todos os anjos maus.
O divino Mestre, cuja paciência era tão grande quanto a sua misericórdia, nem sempre respondia às injúrias lançadas contra ele por seus inimigos, mas essa acusação de agora era tão grave, tão monstruosa, que não podia deixá-la sem resposta imediata. Se o povo chegasse a acreditar que tinha fundamento, toda a obra messiânica estava em sério perigo. Transformar em instrumento e emissário de Satanás aquele a quem Deus havia enviado tão poderosa e ostensivamente como Messias?! Jesus recebendo seu poder milagroso do príncipe das regiões infernais?! Como se calar diante de ultraje tão pérfido? Jamais.
Jesus refutou, pois, a calúnia, e fez isso com exata alegação, cujo vigor, sabedoria e clareza são proverbiais. Todas as qualidades que temos admirado em seus discursos e em suas respostas encontramos reunidas aqui: a doçura e a humildade, jamais comprometidas por alguma ofensa pessoal, nem ainda pelo ultraje mais desonroso; o temperamento tranquilo e sublime, que não devolve injúria por injúria; a justa severidade de juiz, aliada ao amor que instrui e persuade; a plenitude de sabedoria, que em quaisquer circunstâncias descobre os segredos mais ocultos dos corações e declara a verdade com poder penetrante; e, por fim, a majestade de sua pessoa, que se manifesta em todas as coisas.
Os três sinópticos nos conservaram este confronto (Mt 12.27-37; Mc 3.23-30; Lc 11.17-28). Marcos e Lucas, de forma abreviada. Mateus, com textos mais amplos, os quais citaremos conforme sua redação. Consta de duas partes: na primeira, Jesus se mantém na defensiva e desvia a odiosa hipótese de seus adversários, opondo-lhes argumentos irrebatíveis, que ora extrai da razão, ora da experiência. A segunda, investindo vigorosamente contra seus caluniadores, manifesta-lhes a culpa de que são réus e, por conseguinte, o castigo eterno a que se expõem.
Os escribas e os fariseus não haviam ousado proferir suas injúrias diante do próprio Jesus, como haveriam de fazer em Jerusalém (Jo 8.48-52). Antes, lançaram suas palavras ultrajantes do meio da multidão. Mas Jesus teve conhecimento da atitude deles de modo sobrenatural (Mt 12.25; Lc 11.17). E, como sempre, intrépido e franco, chamou seus caluniadores para perto de si, para redargui-los cara a cara, na presença de todos os ouvintes.
Eis a primeira parte de sua réplica. É uma proposta, conforme observa Marcos, quase inteiramente em forma de parábola; ou seja, em linguagem figurada e em imagens, que lhe dão mais força ainda.

Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá.

E, se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo; como subsistirá, pois, o seu reino?

E, se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os expulsam então vossos filhos? Portanto, eles mesmos serão os vossos juízes.
Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, logo é chegado a vós o reino de Deus.
Ou, como pode alguém entrar na casa do homem valente, e furtar os seus bens, se primeiro não maniatar o valente, saqueando então a sua casa?

Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha. (Mateus 12:25-30)
E, chamando-os a si, disse-lhes por parábolas: Como pode Satanás expulsar Satanás? (Marcos 3:23) - pergunta Jesus, de acordo com o segundo evangelho. O príncipe dos demônios guerreando contra si mesmo é uma tremenda contradição, é um absurdo! Com efeito, é lei histórica, demonstrada pela experiência diária e por assinalados exemplos, que um reino, uma família e uma organização moral não podem subsistir se todas as suas partes não estiverem estreitamente unidas entre si. Se ocorre uma divisão e, pior ainda, caso se levante uma guerra interna, a ruína é certa. O próprio Satanás e seu império não escapam dessa lei. Logo, expulsar os demônios em nome de Beelzebu não é mais do que um jogo de palavras, uma expressão sem sentido, puro sofisma dos inimigos de Jesus.
Jesus empregou outro argumento igualmente irrefutável, extraído da atitude dos exorcistas judeus: E, se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os expulsam, então, os vossos filhos? Os filhos, ou seja, os discípulos dos fariseus (uma expressão análoga àquela filhos dos profetas, que se encontra frequentemente nos livros históricos do Antigo Testamento), também tentavam expulsar o demônio do corpo dos possessos, e acontecia, em muitos casos, que suas tentativas tinham um efeito feliz. O Talmude menciona as fórmulas, às vezes mágicas e supersticiosas, com que se realizavam estes laboriosos exorcismos. Será que os fariseus também pensavam que seus mestres eram aliados de Satanás? Muito pelo contrário, admiravam-nos e felicitavam-nos por suas vitórias. Por que então esta parcialidade, esta irritante injustiça com respeito a Jesus?
Dos dois argumentos que precedem, nosso Senhor manifesta duas consequências. Diz que não recebeu seus poderes de Satanás, mas foi o próprio Deus, seu Pai celestial, quem lhe conferiu estes poderes. E mais: se o reino de Satanás começa visivelmente a desmoronar e caminha diretamente para a ruína, segue-se que o reino de Deus, o reino messiânico, já é uma realidade em Israel.
Em seguida, Jesus apresenta uma terceira prova em forma de uma breve, porém dramática parábola, por meio da qual descreve o demônio como um terrível guerreiro, armado dos pés à cabeça, que monta guarda à porta de sua casa. Para desarmá-lo, vencê-lo, acorrentá-lo; para apoderar-se de sua casa, transformada em fortaleza, e apossar-se do tesouro ali amontoado, é preciso um guerreiro mais forte que ele. Este mais forte que desaloja Satanás e arrebata seus despojos é o próprio Jesus, como bem testificam os fatos. Como, então, aqueles homens ousaram dizer que Jesus é criado e servo de Satanás?
Escavações no teatro de Cesaréia de Filipo,
cidade visitada por Jesus (Mt 16.13)
As duas palavras de Jesus - Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha (Mt 12.30) - contêm uma grande advertência. Havia entre o auditório, como em toda a Galileia e em toda a Palestina, muitas almas vacilantes e indecisas, que, impressionadas com os milagres, as pregações e a santidade de Jesus, mas gravemente influenciadas também pela hostilidade que lhe demonstravam os líderes espirituais da nação, não se decidiam por tomar nenhum partido. Jesus, então, previne-lhes contra esta indiferença perigosa, advertindo-lhes que a neutralidade com respeito a ele era impossível e, pior ainda, culpável.
Em questões de princípios - e de princípios que em nenhuma época da história haviam sido tratados antes - a indiferença é considerada oposição. Na guerra sem trégua travada entre o Messias e as potências diabólicas, não havia opção, senão estes dois extremos: estar com Cristo ou contra Cristo; juntar-se a Jesus ou unir-se a Satanás.
Depois de refutar seus inimigos, Jesus passa à ofensiva, mostrando-lhes a magnitude de seu crime e castigo inevitável que lhes aguarda, caso persistissem em seu indigno procedimento. ouçamos uma das sentenças mais terríveis:
Portanto, eu vos digo: Todo o pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada aos homens.
E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro. (Mateus 12:31,32)
Parece que estamos ouvindo a voz de um juiz pronunciando uma sentença. Mas, quando meditamos nos termos desta sentença, o nosso espanto cessa. Para trazer aqueles homens culpáveis a melhores sentimentos e evitar que o exemplo deles contagiasse outras pessoas, Jesus toma uma atitude enérgica. Por isso, repete, duas vezes seguidas, sua sentença.
O primeiro enunciado é mais geral; o segundo, porém, é mais concreto. Em um e outro caso, o estilo é formal, e cada palavra tem um profundo significado. A proposição geral declara que, com uma só expressão, Deus, em sua infinita misericórdia, está disposto a conceder generoso perdão a todos os pecadores que, chorando sinceramente por suas faltas e dispostos a não recair nelas, acheguem-se humildemente ao Seu Tribunal de Soberano Juiz.
O Senhor, há muito tempo, fizera esta consoladora promessa por meio de seus profetas - em particular, na expressiva passagem de Isaías 1.16-18. E agora, renovada por Cristo, ela adquire força e valor novos. Mas o Salvador acrescenta tristemente que há um pecado que não pode ser perdoado: a blasfêmia contra o Espírito Santo. E, ao rejeitar seu pensamento, torna-o ainda mais preciso.
Jesus já não fala mais em termos gerais; agora, assinala um pecado singularmente grave, conforme Mateus 12.32: E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado. (A redação de Marcos neste ponto não é exata. Em vez de Filho do Homem, fala de filhos dos homens: Na verdade vos digo que todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, e toda sorte de blasfêmias, com que blasfemarem. Qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, nunca obterá perdão, mas será réu do eterno juízo - Mc 3.28,29). Mas apesar de tudo, ainda neste caso, é prometido o perdão, desde que a pessoa se arrependa sinceramente.
Sêneca, o maior filósofo romano,
contemporâneo dos apóstolos.
Não é sem razão que Jesus recebe  aqui o título de Filho do Homem, com o qual se destaca o aspecto mais humilde do Messias, sua manifestação em forma humana.
Vendo-lhe pobre, tão semelhante exteriormente aos demais filhos de Adão, tão desprovido das qualidades altivas e heróicas que falsamente os judeus atribuíam ao libertador de Israel, eles podiam, de algum modo, ser induzidos ao erro pelo preconceito e pela ignorância. O apóstolo Pedro explica isso (At 3.17). Paulo também (1Tm 1.13). E o próprio Jesus (Lc 23.34).
Por isso, todos os pecadores, aqueles que não reconheceram Jesus como o Messias prometido ou aqueles que o injuriaram, maltrataram e blasfemaram contra ele, poderiam alcançar o perdão. Mas muito diferente é o caso dos que blasfemaram contra o Espírito Santo, porque este pecado, por sua própria natureza, opõe-se ao desejo de Deus de perdoar àqueles que tenham tido a infelicidade de cometê-lo. Mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro; ou seja, nem neste mundo nem no outro. É um pecado eterno (Mc 3.29), que por isso mesmo será eternamente castigado.
Contudo, por que a blasfêmia contra o Espírito Santo é um pecado imperdoável? Pela singular gravidade deste crime. Não é imperdoável da parte de Deus, ao menos diretamente, já que a bondade e o poder dele são infinitos. Sua "imperdoabilidade" parte do próprio pecador, cuja disposição de intenção é tal que torna moralmente impossível seu perdão.
A cena aqui descrita pelos sinópticos nos oferece uma explicação satisfatória desta espantosa maldição. Jesus tinha acabado de operar um sinal milagroso, por meio do qual a ação de Deus se mostrou claramente. Os fariseus e os escribas, fechando deliberadamente seus olhos à luz divina, atreveram-se a deturpar os fatos de maneira odiosa, atribuindo o milagre ao príncipe dos demônios. Por esse motivo, Jesus declarou que a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada, pelo que deu a entender que os que o insultavam haviam cometido, ou estavam prestes a cometer, o pecado irremissível.
O pecado irremissível consiste, portanto, em um endurecimento voluntário no mal; em um insigne mal, que chega a identificar a obra evidente de Deus com a de Satanás; em uma luta acirrada e premeditada contra o próprio Senhor. Nestas condições, concebe-se que o perdão seja moralmente impossível. Jesus falou desta maneira porque aqueles homens disseram: Tem espírito imundo (Mc 3.30). Com esta informação significativa, Marcos concluiu seu relato desse episódio.
Em Mateus, vemos que Jesus acrescentou:
Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore.
Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca.
O homem bom tira boas coisas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más.
Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo.
Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado. (Mateus 12:33-37)
Local do mar Morto onde estariam soterradas
no lodo as cidades de
Sodoma e Gomorra, citadas várias vezes
por Jesus (Mc 6.11)
Com essa linguagem, em parte figurada, nosso Senhor enfatiza quão inconsequente era o procedimento de seus inimigos. Constrangidos pela evidência dos fatos, eles admitiram que Jesus realmente libertava os endemoninhados. Nisto, pois, eram uma árvore boa, que produzia frutos frutos excelentes. Mas, se analisados pelo que diziam, os fariseus eram também uma árvore má, que produzia maus frutos, já que tratavam Jesus como um aliado de Belzebu.
Agir desta maneira não era uma flagrante contradição e uma manifestação absurda? Vendo isso, o divino Mestre lançou sobre eles o chicote de sua indignação e, tal como seu precursor, em outra ocasião (Mt 3.7), chamou de raça de víboras aqueles malvados, em quem a injúria e a calúnia eram, por assim dizer, frutos naturais, pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca, e neles não havia mais do que maldade. Com que severidade eles não serão condenados pelo justo Juiz, que nem uma só palavra ociosa e inútil deixará impune?
Jesus ainda não tinha concluído sua analogia quando, dentre a multidão, exclamou uma mulher, levantando a voz: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste! (Lc 11.27), que era como dizer: "Oh, quão afortunada é a tua mãe!"
O vigor e a destreza da réplica de Jesus causaram profunda impressão na alma daquela mulher, que não pôde deixar de expressar sua admiração, com ingênua e terna simplicidade. Como mãe que era, sem dúvida, imaginava a felicidade e o nobre orgulho que havia de ter experimentado a mãe que havia trazido ao mundo aquele filho, tão poderoso em palavras e obras. A exclamação da mulher, tão natural e espontânea, lembra a predição de Maria, de cujo cumprimento ela fazia parte: Todas as gerações me chamarão bem-aventurada (Lc 1.48).
A esta bem-aventurança, de ordem natural, Jesus rapidamente acrescenta outra, de ordem sobrenatural. "Antes [aqui, o advérbio não só confirma a asserção que precede como também a modifica, melhorando-a], bem-aventurados os que houve a palavra de Deus e a guardam (Lc 11.28), ou seja, colocam-na em prática.
Com estas palavras, Jesus não desvirtuava o elogio tributado à mulher a quem ele havia feito a mais feliz entre as mães e que sempre fora fiel na observação da palavra divina; mas, segundo seu costume, ele se aproveitava da ocasião que se lhe oferecia para elevar seu auditório a pensamentos superiores. Mais vale, disse Jesus, as pessoas estarem unidas pela obediência às ordens divinas do que por laços de parentesco, por mais estreitos e honrosos que sejam.

O LIVRO DE ECLESIASTES

ECLESIASTES - SENTIDO DA VIDA

INTRODUÇÃO

O autor observou a opressão e a corrupção e notou que a vida nem sempre é como se espera. Embora muitas coisas tenham mudado nos últimos 3.000 anos, essas mesmas observações fundamentais ainda se aplicam hoje em relação à vida debaixo do sol.
O livro de Eclesiastes é um livro sapiencial, e, como tal, ele transmite uma mensagem prática sobre como uma pessoa sábia deve viver neste mundo caído. Apesar de o livro envolver o leitor totalmente nas realidades do mundo natural, sua mensagem geral é positiva, e a sabedoria ensinada nele é facilmente aplicável no mundo de hoje. No entanto, a leitura de Eclesiastes não está livre de desafios, e muitos o consideram um dos livros mais intrigantes da Bíblia. Fora de contexto, muitas afirmações contidas nele podem ser interpretadas de forma a ensinar uma visão excessivamente negativa pessimista da vida. Além disso, Eclesiastes reflete sobre conceitos que exigem uma consideração cuidadosa para discernir as realidades da vida debaixo do sol e as conclusões, baseadas na sabedoria, que fornece uma base positiva para se aproveitar o máximo da vida neste mundo corrompido.
1. O sentido da palavra eclesiastes é dirigir-se a uma assembleia.
2. O propósito do livro:
Convencer os homens da inutilidade de toda visão mundana que não exceda o próprio horizonte humano. O livro pronuncia o veredito sobre a "vaidade das vaidades", ou seja, sobre toda filosofia de vida que considera o mundo criado e a felicidade humana, os propósitos principais da vida. (ARCHAR, Gleason L. A Survey of Old Testament Introduction.p.459)
Você não precisa procurar fora da Bíblia para encontrar uma filosofia de vida meramente humana. Deus descreve-nos, no livro de Eclesiastes, o registro de todo pensamento dos homens, bem como de toda religião natural que já foi descoberta e que trata do sentido ou do propósito da vida. Os argumentos no livro, portanto, não são feitos por Deus, mas são o registro  divino dos argumentos humanos. Isso explica por que passagens como Eclesiastes 1.15; 2.24; 3.3,4,8,11,19,20; 8.15 apresentam uma diferença positiva em relação ao restante da Bíblia. (MEARS, Henrietta C. What the Bible is All About.p.200)
3. Salomão ensina que não há vida após a morte? A resposta é não (veja Ec 3.17; 11.9; 12.14)!
4. As palavras e expressões fundamentais em Eclesiastes são homem (empregada 47 vezes), trabalho (36 vezes), sob o sol (30 vezes)e vaidade (37 vezes).
5. O livro de Eclesiastes pode ser resumido por duas afirmações: uma feita por um célebre advogado agnóstico, e outra por empregado do esgoto de Chicago. As duas afirmações buscam responder uma pergunta relativa à filosofia de vida pessoal de cada um.
"Há uma afirmação na Bíblia que resume minha vida. Ela diz: Havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos [Lc 5.5]" - Clarence Darrow.
"Eu cavo o  poço para conseguir dinheiro para comprar comida e fortalecer-me para cavar mais poços!" - Cook County, tratador do esgoto.

ANÁLISE

A. Os problemas afirmados (Ec 1--2).
Mesmo antes de começar sua busca pelo significado da vida, Salomão tem dúvidas:
Tudo na vida parece tão fútil (Ec 1.2).
Gerações vem e vão, mas nada parece fazer diferença (Ec 1.4).
O sol nasce e se põe, o vento vai e volta, mas nada disso parece levar a algum lugar ou cumprir algum propósito (Ec 1.5,6).
O rio corre em direção ao mar, mas o mar nunca está cheio. A água retorna novamente para os rios e flue depois, uma vez mais, em direção ao oceano (Ec 1.7).
Tudo parece tão indizivelmente exaustivo e tedioso (Ec 1.8). Nenhum homem parece satisfeito, apesar de tudo o que viu ou ouviu (Ec 1.8). A história contenta-se em repetir a si mesma - absolutamente nada de novo chega a acontecer sob o sol (Ec 1.9,10).
Daqui a 100 anos, tudo estará esquecido, não importa o que aconteça hoje (Ec 1.11). A vida era verdadeiramente assim em toda a parte? Um homem sábio e forte poderia encontrar paz e propósito na vida buscando o comprimento e a largura da terra? Salomão tentaria beber profundamente das fontes feitas pelos homens:

  1. Sabedoria humana (Ec 1.16,170. Salomão tinha mais capacidade natural de acumular e organizar fatos brutos do que qualquer outro homem que tenha vivido (fora Cristo). Todavia, o próprio Salomão concluiu melancolicamente: Porque, na minha sabedoria, há muito enfado; e o que aumenta em ciência aumenta em trabalho. Eclesiastes 1.18
  2. Prazer (Ec 2.1-3). A filosofia fracassara, diz o pregador, então, que a alegria seja tentada. Música, dança, vinho (não em excesso), a história cômica, a tirada esperta: eis o que agora é cultivado. Os palhaços são agora bem-vindos à corte onde antes apenas a séria filosofia era admitida. Os salões do palácio ressoam com felicidade e júbilo. (MEARS, Henrietta C. What the Bible is All About.p.201) Mas o sorriso e os liquores não conseguiam abrandar em nada a alma do homem. O rei conclui: Do riso disse: Está doido; e da alegria: De que serve esta? (Ec 2.2, veja também Ec 8.15).
  3. Álcool (Ec 2.3).
  4. Grandes projetos de edificação (Ec 2.4).
    Um Olival em Israel
  5. Belos jardins e parques (Ec 2.4-6).  Então, saborosas vinhas, jardins graciosos, flores raras e exóticas, plantas tropicais e outros focos de vegetação brotaram subitamente. Jerusalém e as cercanias floresceram tal como o jardim do Éden original. Mas, infelizmente, a geada da indiferença logo arruinou esse florescimento também!
  6. Indulgências pessoais (Ec 2.7). O rei tinha um servo pessoal para cada desejo. Mas ninguém podia atender o seu desejo de paz e propósito interiores.
  7. Grandes riquezas (Ec 2.7,8).
  8. Criação de gado (Ec 2.7). Grandes rebanhos de vacas, ovelhas, bois, cabras e outros animais se desenvolveriam sobre as verdes pastagens da Palestina. Mas, embora a pele e a carne desses animais pudessem vestir e alimentar o homem exterior, elas não conseguiam retirar a alma interior de seu estado de nudez e fome.
  9. Música (Ec 2.8). Mas a nota que está faltando para o contentamento não será encontrada na música, não importa quão bela seja a canção ou quão talentosos sejam os cantores.
B. Os problemas estudados (Ec 3--10).
Depois de completar uma exaustiva (e certamente exaurida) jornada, Salomão retornou para casa (Ec 4.1) e meditou sobre suas viagens. Ao considerar como é a vida longe de Deus, ele conclui:
  1. Elas é decididamente fútil (Ec 2.11).
  2. Tomada pela repetição (Ec 3.1-8).
  3. Permeada pela tristeza (Ec 4.1).
  4. Dolorosa e frustante (Ec 2.17).
  5. Ela é incerta (Ec 9.11,12).
  6. Ela não tem propósito (Ec 4.2,3; 8.15).
  7. Ela é incurável (Ec 1.15).
  8. Ela é injusta (Ec 7.15; 8.14; 9.11; 10.6,7).
  9. E encontra-se ao nível da existência animal (Ec 3.19).
C. O problema solucionado (Ec 11--12).
Salomão concluiu que até mesmo com Deus a vida é um mistério, mas, sem Ele, ela torna-se um terrível pesadelo. Portanto, é melhor que o homem:
Encontre Deus no começo da vida (Ec 11.9,10; 12,1,2).
Tema o Todo-Poderoso ao longo de sua vida (Ec 12.13,14). J. Vernon McGee resume adequadamente Eclesiastes 12.1-7:
  • 12.2: A visão falha faz parecer que o sol, a lua e as estrelas estão escurecendo. O tempo voa, e uma experiência fracassa após a outra - as nuvens retornam depois da chuva.
  • 12.3: A expressão no dia em que tremerem os guardas da casa refere-se às pernas. O idoso começa a cambalear. Homens fortes são os ombros que não mais ficam firmes. Moedores são os dentes. E os que olham pelas janelas referem-se à visão que começa a falhar.
  • 12.4: A expressão portas da rua se fecharem refere-se à dificuldade de ouvir. Já baixo ruído da moedura refere-se à língua. A voz da velhice afina-se. Se levantar à voz das aves - era necessário um relógio com alarme para acordá-lo antes, mas agora o chilrear de um pássaro bastava para perturbar o sono dele. Todas as vozes do canto se baixarem - indica que ele não pode mais cantar em coro e não consegue mais seguir a melodia.
  • 12.5: Temerem o que está no alto - coisas que antes não o amedrontavam. Houver espantos no caminho - ele não gosta mais de viajar. E florescer a amendoeira - nosso cidadão sênior está ficando com os cabelos brancos, isso se eles ainda não caírem. E o gafanhoto for um peso - pequenas coisas aborreceram-no. E perecer o apetite - a morte virá. O homem se vai à sua eterna casa - a morte virá.
  • 12.6,7: Cadeia de prata - a espinha vertebral. O copo de ouro - a cabeça. Cântaro - os pulmões. Roda - o coração.

CANTARES - Canções de Amor

Cantares é uma canção de amor semelhante, em muitos aspectos, a outras canções de amor do mundo antigo. Embora o assunto do cântico pareça estar fora de sintonia com o material religioso encontrado no restante da Escritura, ele desempenha função importante na literatura sapiencial hebraica. O livro ensina às pessoas como fazer escolhas sábias na vida terrena.
A capacidade de tomar decisões corretas no âmbito do amor romântico diz respeito a cada indivíduo pertencente ao povo de Deus, seja ele casado ou solteiro.
Talvez, o maior benefício que o cristão possa obter com o estudo de Cantares seja a lembrança de que o amor é um dom de Deus e deve ser apreciado como tal. Aquilo que Deus criou e considerou bom (Gn 1.31) deve ser apreciado no contexto do matrimônio. Apresentação positiva do relacionamento amoroso em Cantares faz o equilíbrio necessário com as proibições à expressão sexual ilícita vistas no restante da Escritura. Essa canção declara a força do verdadeiro amor, essencial ao casamento biblicamente correto.
Muitas pessoas surpreendem-se ao encontrar textos eróticos tão explícitos na Bíblia. Os casais não se envergonham de desfrutar o amor um do outro. Contudo, embora sensuais, os textos não são de mau gosto. Cantares ensina que o amor, o romance, o sexo e o casamento foram criados por Deus para serem desfrutados dentro do casamento entre um homem e uma mulher. Nesse sentido, Cantares serve como modelo para relacionamentos conjugais de todo o povo de Deus.

AUTOR

O título do livro, Cânticos dos Cânticos de Salomão (Ct 1.1 NVI), parece identificar o rei Salomão como autor. Ele pode ser traduzido literalmente do hebraico como "o maior cântico de Salomão". No entanto, a expressão "de Salomão" põe em dúvida se o cântico foi escrito "por Salomão", "sobre Salomão" ou "para Salomão". A favor da autoria salomônica está o fato de que 1 Reis 4.32 dá ao rei o crédito por, no mínimo, 1005 cânticos - o fato de que Salomão foi um compositor é inquestionável. Portanto, a implicação clara no título é que este é o  maior cântico de Salomão. Além disso, a distinção entre "por" e "sobre" é desnecessária, pois é possível que a canção apresente um elemento de reflexão autobiográfica e, por conseguinte, tenha sido escrita por Salomão e, ao mesmo tempo, seja sobre Salomão.
Jardim fechado, usado como
descrição em Cantares 4.12.
Mais uma evidência a favor da autoria salomônica - ou, ao menos, de um contexto salomônico - pode ser encontrada nas referências internas a especiarias exóticas, metais preciosos e um sistema político monárquico, uma vez que tudo isso fazia parte do reinado de Salomão. Além disso, há paralelos externos com poesias de amor egípcias anteriores ao período da monarquia unida, sendo possível, portanto, uma data anterior para o cântico. Diante de tudo isso, as evidências a favor da autoria salomônica são fortes.
Mark Rooker observa que o nome de Salomão aparece sete vezes no livro (Ct 1.1,5; 3.7,9,11; 8.11,12). Ele também observa que a citação de 21 variedades de lantas e 15 espécies de animais está em consonância com o conhecimento de Salomão sobre tais assuntos (1Rs 4.33). Referências a nomes de lugares em todo o Israel (de Jerusalém a Carmelo e de Hermom a En-Gedi) indicam a geografia da monarquia unida. E, ao todo, para descrever as complexidades do amor humano, 49 termos exclusivos fazem referência a figuras da natureza do mundo pré-moderno.

INTERPRETAÇÃO

Historicamente, o método mais comum para a interpretação de Cantares era tratá-lo como alegoria. A tradição judaica interpretava o livro alegoricamente, descontextualizando totalmente os versículos. Assim, os dois seios eram entendidos como Moisés e Arão, e o livro era visto como metáfora da história do relacionamento entre Israel e Deus. E muitos pais da Igreja consideravam o livro tipologicamente, como figura do amor de Cristo pela Sua noiva, a Igreja. Todavia, embora a Escritura utilize o casamento humano como tipo na descrição do relacionamento entre Deus e Israel e entre Cristo e a Igreja, Cantares, por diversas razões, não deve ser interpretado alegoricamente.
Primeiro, sempre que o relacionamento entre Deus e Israel é apresentado de forma alegórica no Antigo Testamento, o texto indica claramente que há uma alegoria sendo usada como meio de expressão, e as expressões figuradas são quase sempre definidas em relação ao respectivo referente. Além do mais, quando isso ocorre no Antigo Testamento, o relacionamento entre Deus e Israel é retratado com sentido negativo, não com o sentido positivo de Cantares (Ez 16; 23).
Segundo, alegorizar Cantares deixa muitos detalhes sem explicação quanto ao referente ou ponto de comparação. A história da interpretação alegórica de Cantares pode ser descrita como "fantasia ilimitada", e a imposição de conceitos teológicos na linguagem do texto tem pouca base em qualquer método natural de interpretação.
Além disso, algumas pessoas chegaram a questionar se a linguagem do livro pode ser aplicada apropriadamente ao relacionamento tipológico entre Cristo e a Igreja, sobretudo porque essa linguagem não é citada no Novo Testamento. Apesar de Paulo ter tido a oportunidade de citar Cantares quando justificou o grande mistério do amor de Cristo pela Igreja, ele optou por não o fazer e citou Gênesis 2.24 em sua admoestação a maridos e esposas em Efésios 5.22,33. Uma vez que os apóstolos não citaram, sequer ao fazer um argumento conceitual retratando o casamento de Cristo com a Igreja, parece improvável que eles tenham considerado Cantares como um tipo de relação entre Cristo e a Igreja. Por outro lado, o fato de o Novo Testamento ilustrar o relacionamento entre Cristo e a Igreja com uma metáfora do casamento poderia indicar uma alusão à linguagem de Cantares.
A gazela dama é uma espécie
de antílope encontrada em Israel.
Por fim, é natural que a Bíblia apresente uma expressão de uma das emoções humanas mais intensas, o  amor conjugal. Embora o tema do amor entre um homem e uma mulher possa parecer muito secular para o cânon inspirado, é preciso lembrar que Deus macho e fêmea os criou e, portanto, pareceu-lhe apropriado inspirar uma canção que abordasse a força do amor entre os sexos opostos.

FIGURAS E DRAMAS

Mesmo partindo de uma abordagem baseada no entendimento literal de Cantares como canção de amor inspirada, ainda encontramos desafios interpretativos. As canções de amor atuais, com suas figuras vívidas e expressões idiomáticas, podem ser difíceis de ser compreendidas - quanto mais uma música composta há cerca de 3.000 anos! Três problemas principais dificultam a leitura atual de Cantares.
Primeiro, as figuras poéticas da cultura do antigo Oriente Próximo são estranhas para os leitores modernos. Os amantes falam sobre especiarias e perfumes e comparam o outro a elementos agrícolas, o que soa pouco lisonjeiro para o ouvido moderno, mas, apesar disso, comunica um nível de atração e uma gama de emoções que demonstram toda a força e o potencial do amor erótico. Os detalhes são, em geral, difíceis de serem decifrados, mas a mensagem principal fica clara na maneira como os amantes conversam entre si.
Segundo, o enredo e a alternância de locutores em Cantares torna o livro, por vezes, difícil de acompanhar. O texto original não revela se era o homem, a mulher ou o coro falando (ou cantando), e, como acontece com qualquer poesia lírica, o enredo pode ser difícil de ser seguido. Embora Cantares, certamente, não seja uma peça destinada a ser representada sobre um palco nem um romance com personagens e tramas com o objetivo de ser lido, o livro parece partir do namoro romântico, passar pelo casamento e chegar à intimidade. Ao cantar um para o outro, os amantes (como em um dueto romântico) contam a história de amor que está desabrochando; contudo, não se deve ler Cantares como um drama histórico que reúne o enredo em uma trama detalhada. Em vez disso, tal qual uma canção de amor, deve-se procurar entender como os amantes sentem-se um em relação ao outro e observar como se comunicam. É aqui que a sabedoria de Cantares encontra-se. Apenas em segundo plano uma história dramática desenrola-se.
E o terceiro problema diz respeito ao drama que aparece subjazer às palavras de Cantares. A abordagem padrão é ver Cantares retratando o amor entre Salomão e sua amada,mas existe uma visão menos popular do assunto, que detalha um enredo dramático, o qual envolve uma mulher, seu amante pastor e Salomão, este na posição de vilão que procura levar a mulher para seu harém. O enredo dos três personagens, chamado de hipótese do pastor, parece improvável, pois isso significaria que Salomão escreveu ou aceitou uma canção na qual é retratado como monarca vilão que tenta roubar uma noiva dos braços de seu verdadeiro amor.
Norman Geisler sugere um enredo aceitável para a canção. Ele considera-o como uma canção de amor antifônica entoada pelo noivo e pela noiva no dia do casamento. Em uma espécie de "história da Cinderela" judaica, a virgem é enviada para a vinha pelos irmãos após a morte dos pais. Ao trabalhar ali, ela conhece um pastor e apaixona-se, e ele promete retornar algum dia. Durante sua ausência, ela sonha com ele, mas acorda e lembra-se de que ele não está ali. Por fim, quando retorna, ele não é ninguém menos do que o rei Salomão, e sua carruagem real leva-a para o palácio onde se casarão. Mais tarde, eles voltam para a aldeia da moça, e seus irmãos a exaltam (ela é um "muro" de virtude). Embora essa abordagem expresse um possível enredo, ela não explica completamente a intimidade da linguagem utilizada nas canções

ESTRUTURA

Apesar de algumas pessoas argumentarem que Cantares é uma antologia de canções menores, a progressão do relacionamento dos amantes gera um movimento perceptível que unifica o cântico do início ao fim. Além disso, uma coerência literária no nível da linguagem e do tema sugere um único autor, e não uma coletânea de canções. Todavia, é difícil esquematizar o livro segundo um enredo detalhado ou uma progressão linear de acontecimentos. Como cântico, as unidades individuais funcionam como fotografias em um álbum, oferecendo vislumbres líricos da progressão do relacionamento entre os amantes, desde o namoro e o casamento até a maturidade.
Cedro do Líbano
Embora se tente desenvolver um esboço estrutural detalhado segundo o ciclo de "cenas" individuais, uma abordagem mais simples seria acompanhar os movimentos maiores perceptíveis dentro do cântico,reconhecendo que os amantes alternam palavras de admiração e reflexão ao longo do texto. Esses ciclos de poemas de amor são interrompidos apenas por breves coros dos amigos e pela repetição de três refrões (não acordeis nem desperteis o meu amor, até que queira) no cântico (Ct 2.7; 3.5; 8.4). Assim, no geral, Cantares pode ser dividido em quatro partes.

  • Romance (Ct 1.1--3.5)
  • Intimidade conjugal (Ct 3.6--5.1)
  • Expressão do amor conjugal (Ct 5.2--8.4)
  • Epílogo (Ct 8.5-14)

ROMANCE (Ct 1.1--3.5)

Após uma legenda (Ct 1.1), o cântico logo começa com a voz feminina expressando seu intenso desejo por afeto romântico - Beije-me ele com os beijos da sua boca (Ct 1.2) -, desse modo, ditando o tom de linguagem lírica que se intensifica ao longo do livro. Contudo, embora o desejo por intimidade seja claramente expresso nessa seção de namoro (veja Ct 1.4,16; 2.3-6,10-13; 3.4), os amantes mostram contenção até a noite de núpcias, quando, então, satisfazem seus desejos físicos (Ct 4.16--5.1).
Apesar de o segmento do namoro apresentar alternâncias constantes entre a voz do homem e a da mulher, dois temas consistentes podem ser observados nas palavras de ambos. Primeiro, a voz feminina reflete inseguranças frequentes quanto à própria aparência (Ct 1.7) e ao medo de perdê-lo (Ct 3.1-4). Segundo, os dois não deixam de elogiar a aparência um do outro (Ct 1.10,11,15,16; 2.14), de declarar o compromisso exclusivo que têm entre si (Ct 1.9; 2.2-4,16) e de expressar o desejo de estarem juntos (Ct 2.8-13). As descrições que eles fazem da aparência um do outro são como impressões mentais em uma época anterior à fotografia. Eles memorizam todas as características a fim de intensificar a saudade enquanto estiverem separados. Com palavras de elogio, eles declaram seu amor, preparando-se para o casamento futuro. As inseguranças da mulher em relação à sua aparência e ao medo de perder o amante são totalmente resolvidas com os elogios e a presença dele.

INTIMIDADE CONJUGAL (Ct 3.6--5.1)

A transição do namoro para o casamento é indicada pela imagem de um grande cortejo nupcial acompanhado por toda a extravagância da realeza (Ct 3.6-11). Nesse relato, Salomão é identificado pelo nome (Ct 3.7,9,11), e a indicação de que se trata de um cortejo nupcial é clara (Ct 3.11).
Depois da procissão, Cantares não descreve os aspectos cerimoniais do casamento, mas, em vez disso, celebra a consumação do desejo íntimo (Ct 4.16--5.1). Salomão enaltece a beleza de sua amada na noite de núpcias (Ct 4.1-7) e exprime a profundidade de seu amor por ela (Ct 4.8-11). Ele elogia sua pureza ( Ct 4.12) e a rica satisfação que seu amor oferece (Ct 4.13-15).
A consumação do casamento é expressa por meio de uma metáfora sutil, para celebrar a beleza sensual com bom gosto e elegância. Não há hesitação no convite do amado (Ct 4.16) uma vez que o casamento foi realizado, e a satisfação da intimidade sexual é irrestrita e celebrada como um dom do Criador (Ct 5.1).

EXPRESSÃO DO AMOR CONJUGAL (Ct 5.2--8.4)

O terceiro segmento de Cantares começa com outra sequência de sonho (como em Ct 3.1-4), na qual a amada é separada do amante (Ct 5.2-8). Porém, ela lamenta a separação (Ct 5.8) e declara seu amor por ele enaltecendo mais uma vez sua aparência (Ct 5.10-16). Com o incentivo dos amigos (Ct 5.9; 6.1), os amantes são reconciliados, e a intensificação do compromisso é reafirmada na íntegra: Eu sou do meus amado, e o meu amado é meu (Ct 6.3; veja também Ct 6.2). Depois dessa separação velada dos amantes, a voz masculina elogia novamente a aparência da amada e declara seu desejo por ela (Ct 6.4-9; 7.1-9) na mais bela e intensa linguagem de amor já escrita por mãos humanas. Por meio de uma canção, ela responde com mais um convite à intimidade (Ct 7.9b--8.3) e confirma a posse mútua um do outro (Ct 7.10).

EPÍLOGO (Ct 8.5-14)

A confirmação do amor do casal é expressa poeticamente como um selo sobre o coração e o braço, uma indicação de propriedade mútua de pensamentos e ações (Ct 5.6a). Em seguida, como clímax, Cantares irrompe proclamando o poder e a riqueza do amor romântico na melhor expressão encontrada na Escritura:

  • [...] pois o amor é tão forte quanto a morte, e o ciúme é tão inflexível quanto a sepultura. Suas brasas são fogo ardente, são labaredas do Senhor.Nem muitas águas conseguem apagar o amor; os rios não conseguem levá-lo na correnteza. Se alguém oferecesse todas as riquezas da sua casa para adquirir o amor, seria totalmente desprezado. Cânticos 8:6b,7 
Muito embora o poema expresse o poder e o valor do amor como clímax final de Cantares (Ct 8.6b-7), o texto continua com uma recordação da pureza da amada antes de seu relacionamento com Salomão (Ct 8.8-12) e com uma reiteração do desejo dos amantes de serem propriedade um do outro nos anos futuros do casamento (Ct 8.13,14).

IMPORTÂNCIA TEOLÓGICA

Como poesia lírica, Cantares exalta as virtudes do amor e evoca as profundas emoções presentes na atração que Deus criou entre sexos opostos. Como literatura sapiencial, Cantares ensina ao povo de Deus como expressar amor à pessoa a quem, por meio do casamento, entrega-se o coração e o corpo. No entanto, além dos aspectos práticos da instrução sobre comunicação e intimidade, Cantares serve, na Escritura, para demonstrar o poder supremo do amor e a vitória deste sobre a maldição (Gn 3.16-19). Embora o conflito entre os sexos seja resultado da queda, o relacionamento conjugal ainda pode, pela graça de Deus, ser tão satisfatório quanto era na criação (Gn 2.18-25). Para isso, a oração dos santos solteiros em todo o mundo deve ser: "Senhor, prepara-me para, em Seu próprio tempo, ter um relacionamento como o descrito em Cantares". Quanto aos filhos de Deus que já estão atados aos laços do Casamento, sua oração deve ser: "Senhor, coloca em mim e em meu cônjuge o amor exemplificado em Cantares e ajuda-me a traduzi-lo em palavras e ações". Apesar de as interpretações alegóricas de Cantares não serem baseadas em uma exegese cuidadosa do texto, a figura tipológica geral do amor conjugal, certamente, ilustra o amor de Deus pelo Seu povo. Portanto, escritores do Antigo e Novo Testamento empregam temas conjugais para descrever o relacionamento de Deus com Israel (Is 62.4,5; Jr 3.1-11; Os 2.19,20) e de Cristo com a Igreja (Ef 5.21-33; Ap 19.7-9; 20.9-11).

CONTEXTO DA HISTÓRIA

A. ATO um - a cinderela sulamita.
1) Salomão tinha um vinhedo na região  montanhosa de Efraim, nos arredores da pequena cidade de Sulam, a aproximadamente 80Km ao norte de Jerusalém (Ct 8.11).
2) A vinha era arrendada por uma família de meeiros constituída pela mãe, seus dois filhos e suas duas filhas. A mais velha das garotas era a sulamita, e a mais nova, a irmã pequena descrita em Cantares 8.8 (veja também Ct 6.13).
3) A sulamita era a cinderela da família, pois tinha grande beleza natural, ainda que isso não tivesse sido notado pelo mundo.
4) Seus irmãos lhe faziam trabalhar duro cuidando do vinhedo, de modo que ela tivesse poucas oportunidades para cuidar da própria aparência (Ct 1.6).

  • Ela podava as vinhas.
  • Fazia armadilha para as pequenas raposas (Ct 2.15).
  • Ela também cuidava dos rebanhos (Ct 1.8).
5) Por estar exposta ao sol tão frequentemente, ela acabou ficando morena (Ct 1.6).
B. ATO dois - o estranho pastor.
1) Um dia, um belo homem estrangeiro e misterioso apareceu na vinha e logo ganhou o coração da sulamita. Esse homem era desconhecido para ela; na verdade, era o próprio Salomão disfarçado de um pastor modesto.
2) Ela perguntou-lhe sobre seus rebanhos (Ct 1.7).
3) Ele respondeu evasivamente, mas foi bem decidido em relação ao seu amor por ela (Ct 1.8-10).
4) Ele foi embora, mas prometeu que voltaria um dia.
5) Durante sua ausência, ela sonhou com ele em duas ocasiões.
  • Primeiro sonho - que eles já estavam casados e que certa noite ela acordava e não o encontrava na cama. Ela vestiu-se rapidamente e saiu procurando-o (Ct 3.2-4).
    Muda de Mirra Perfumada
  • Segundo sonho - que o seu amado retornara e rogara-lhe que abrisse a porta e o deixasse entrar. Mas ela recusava-se, pois não estava disposta a vestir-se e a sujar seus pés no caminho até a porta. Todavia, logo o coração dela afligiu-a por esse comportamento inadequado, e, consequentemente, ela pulou em direção à entrada da casa. Contudo, infelizmente, ele já tinha ido embora (Ct 5.4-6)! Dr.J.Vernon McGee informa-nos de que um adorável costume daqueles dias levava o noivo a colocar mirra perfumada dentro da maçaneta da porta da noiva. A noiva começava, então, a procurar agitadamente o amado que havia ignorado descuidadamente. Durante a busca, os guardas da cidade maltrataram-na, e o vigia na muralha rasgou o seu véu. Ela pediu ajuda às mulheres de Jerusalém, para que elas buscassem seu amado e informassem-no acerca do amor que ela sentia por ele (Ct 5.6-8). De modo súbito e alegre, ela descobriu onde ele estava (Ct 6.2,3).
6) Esses foram, portanto, os dois sonhos relativos ao misterioso amado pastor da sulamita. Mas por que ele deixou-a? Onde ele foi? Ele retornaria?
C. ATO três - o poderoso monarca.
1) Um dia, a pequena cidade de Sulam recebeu notícias eletrizantes. O próprio rei Salomão aproximava-se da cidade. Mas a moça solitária e apaixonada não estava interessada naquilo e não recebeu mais notícias até ouvir que o poderoso monarca desejava vê-la.
2) Ela ficou confusa até o momento em que foi levada à presença do rei, quando pôde finalmente reconhecê-lo como seu amado pastor. Então, ele gentilmente lhe explicou que, embora já tivesse reunido seis esposas, 80 concubinas e inúmeras virgens, ela era a esposa escolhida e seu verdadeiro amor (Ct 6.8). Logo, convidou-a para ir com ele e prometeu que cuidaria de sua irmã pequena (Ct 8.8,9).
3) Em seguida, a noiva foi colocada sobre a carruagem do rei, feita de cedros do Líbano, com colunas de prata, estrado de ouro e assento de púrpra (Ct 3.9,10).
4) Juntos, eles dirigiram-se para o palácio real em Jerusalém, acompanhados de 60 poderosos espadachins e guarda-costas experientes (Ct 3.7,8).

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