Costumes Bíblicos: JESUS PERDIDO E ACHADO NO TEMPLO

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JESUS PERDIDO E ACHADO NO TEMPLO

JESUS PERDIDO E ACHADO NO TEMPLO
Devemos lembra-nos que, de todos os evangelistas, Lucas é o que melhor nos permite conhecer a natureza humana do Verbo encarnado. Esse evangelista é o que nos ensina acerca do crescimento de Jesus, pois isto faz parte de seu plano narrativo. Assim, antes de falar sobre os progressos intelectuais e morais do Filho de Deus, Lucas relata as diferentes fases do seu desenvolvimento físico, mostrando-o ainda no ventre materno (Lc 1.42), em seguida como bebê (Lc 2.17,27,40), e depois como um menino de 12 anos (Lc 2.43).
A primeira dessas referências a que antes aludimos é muito significativa: E o menino crescia e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele (Lc 2.40). Este versículo nos mostra três fatos distintos: Em primeiro lugar, Jesus crescia e desenvolvia-se. O corpo dele crescia regularmente, semelhante, como nos diz Isaías (Is 53.2), a um renovo, cujo caule se alargava e crescia pouco a pouco. Jesus também se fortalecia; um vigor sadio corria em suas veias, enquanto a "seiva" se espalhava pelos ramos da planta robusta. O detalhe seguinte diz muito: ele era cheio de sabedoria, e isto aponta para o Espírito.
À medida que Jesus se desenvolvia fisicamente, sua sabedoria também aumentava, conforme depois estudaremos. A palavra sabedoria deve ser levada em consideração em sua concepção hebraica: como sinônimo de inteligência. Por fim, e a graça de Deus estava sobre Ele. Este terceiro dado se  refere à alma do menino, na qual a graça, a misericórdia e o favor do céu se uniram, para protegê-lo e dirigi-lo.
Esta simples observação do evangelista é tão profunda que nunca conseguiremos alcançar o seu sentido total. Mas isso é suficiente para saber o que o Espírito Santo quis nos revelar acerca da infância de Jesus, desde o regresso deste do Egito até atingir a idade de 12 anos. Pouca coisa aparentemente. Mas que riqueza de ideias em tão poucas palavras! Elas nos traçam o delicado perfil do Salvador em seus primeiros anos.
Ele foi a criança ideal. Todas as características convenientes à sua idade brilhavam nele e manifestavam-se em suas palavras e em sua conduta. Admiremos a disposição humilde do Filho de Deus, que voluntariamente se tornou homem submetendo seu crescimento físico, intelectual e emocional a todas as condições normais do desenvolvimento humano. Jesus, pois, cresceu e desenvolveu-se segundo as condições normais da vida. Seu crescimento ocorreu sem entorpecimentos, sem enfermidades, sem problemas.
É grato imaginá-lo na sua idade primeira como um gracioso menino! A seguir, diremos algo sobre a discussão que nos tempos antigos surgiu acerca da beleza ou da feiura física do nosso Senhor Jesus Cristo; contudo, quaisquer que tenha sido s seus traços físicos [ha indícios seguros, que tenha sido maravilhosamente belo, segundo escritos de historiadores judeus dos tempos dEle. Leia sobre, AQUI], não podemos deixar de admirar a nobreza de sua alma que, desde sua infância, manifestou-se em seu semblante.
Paralelamente ao seu crescimento físico, ocorria o seu crescimento intelectual e moral; mas isto não era nada deslumbrante, de extraordinário, de milagroso. Ano após ano, Jesus ia revelando suas qualidades de espírito e de coração que convinha à sua idade e situação, mas sem ultrapassar as leis do desenvolvimento comum.
A expressão empregada neste lugar por Lucas, a qual mais adiante estudaremos, nada mais diz e nada mais expressa do que um crescimento natural e regular, ainda que para nós seja admirável seu crescimento sendo ele Filho de Deus.
Não nos esqueçamos, porém, de que, se o Verbo Encarnado extremou sua condescendência até revestir-se das fraquezas e imperfeições da infância, deveríamos muito mais ter cuidado de atribuir-lhe os defeitos morais dessa natureza. Paulo escreveu: Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino (1Co 13.11). Mas é difícil imaginar essa realidade em Jesus, cujos pensamentos, sentimentos e linguagem só nos parecem infantis externamente.
Assim, pois, durante seus primeiros anos, Jesus não foi aquele menino prodígio que os evangelhos apócrifos descrevem. Isto teria sido contrário ao plano divino; plano segundo o qual Jesus deveria permanecer humilde, oculto e desconhecido dos homens até sua aparição ministerial na história.
Além disso, imaginar Jesus realizando contínuos milagres durante o tempo de sua infância  está em contradição evidente com a história evangélica, que nos mostra que em Caná ele realizou seu primeiro milagre no princípio de sua vida pública (Jo 2.11) e que seus compatriotas de Nazaré ficaram extremamente surpresos quando o viram falar como profeta e executar ações maravilhosas (Mc 1.27; 2.12; 6.2-6).
Um só fato notável, referido por Lucas com expressiva simplicidade, ocorreu durante um longo período da vida de Jesus em Nazaré, e tal fato nos permite vislumbrar os progressos que dias após dia se efetuavam no intelecto e na alma do divino menino: cena delicadíssima que, como um claro raio luminoso, desfaz por alguns instantes a obscuridade em que a adolescência de Jesus estava mergulhada (Lc 2.41-51).
Jerusalém do Monte das Oliveiras,
mostrando as multidões na
 cidade na época da Páscoa (1911)

PEREGRINAÇÃO A JERUSALÉM

Já mencionamos as três peregrinações que a cada ano os judeus deviam fazer até Jerusalém e ao Templo por ocasião das solenes festas da Páscoa, do Pentecostes e dos Tabernáculos (Êx 23.14-17; 34.22,23; Dt 16.16). A vida do povo teocrático se concentrava naquela época em um movimento intenso em torno do santuário único, que era considerado o palácio do Deus e Rei de Israel. Ao longo dos tempos, se havia tornado menos rígido o preceito não só para aqueles membros da nação que em grande número viviam no estrangeiro, como também para os que residiam nos distritos palestinos mais distantes. Cada judeu costumava contentar-se com uma só peregrinação, e a da Páscoa, cuja solenidade lembrava as graças e as glórias de natureza superior, exercia especial atrativo sobre todos eles.
Milhares e milhares de fiéis vinham de todas as partes a Jerusalém. Só os homens eram obrigados a esses preceitos, e nenhuma menção se fazia das mulheres; mas estas, no espírito de piedade, faziam prazerosamente essas peregrinações, como, em outro tempo, Ana, mãe de Samuel (1Sm 1.7), como Maria, mãe de Jesus, e como as santas mulheres da Galileia, mencionadas em diversas passagens do evangelho  (Mt 27.55; Mc 15.47).
Disse Lucas: Ora, todos os anos, iam seus pais [de Jesus] a Jerusalém, à Festa da Páscoa. E, tendo ele já doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume do dia da festa. Será que isto queria dizer que Jesus nunca havia participado de anteriores peregrinações com José e Maria e que os acompanhava pela primeira vez? Não. Isto está de acordo com o que pensa a maioria dos comentaristas acerca deste ponto; além disso, é difícil admitir que os pais de Jesus tivessem ido outras vezes a Jerusalém e deixado o menino em Nazaré, aos cuidados de outras pessoas.
O Talmude fala de crianças de 3 anos cujos pais as levavam ao Templo sobre seus ombros, e de crianças de 5 anos, a quem os pais davam a mão para ajudá-las a subir os degraus do santuário. Se o evangelista declarou a idade de Jesus, não foi somente para fixar a data exata do episódio, mas principalmente pela importância que essa idade tinha entre os judeus.
No princípio dos 13 anos era quando todo jovem israelita começava a ser, segundo as regras estabelecidas pelos rabinos, bar-mitsevah, filho do preceito, ou ben-hattorah, filho da lei, ou seja, sujeito a todas as prescrições da lei mosaica, mesmo as mais pesadas, como o jejum e as peregrinações ao Templo. E assim foi, pois um oriental, aos 12 anos, deixa de ser criança para tornar-se um adolescente e um jovem forte a quem a fadiga não amedronta.
O evangelista Lucas omite os pormenores da viagem para a festa, mas nos permite completar sua narração. As solenidades pascais eram celebradas em meados do mês de Nisã, pelo qual começavam o ano religioso dos hebreus (começava com a lua nova do nosso mês de março e terminava com a lua nova de abril); e como a distância de Nazaré a Jerusalém era percorrida em pelo menos três dias de viagem, era necessário começar a viagem por volta do dia dez.
Raramente, os peregrinos faziam essa viagem isoladamente. Os habitantes de cada localidade, quando não de várias aldeias, uniam-se para formar uma caravana que caminhava piedosa e alegremente, orando e cantando Salmos, especialmente os chamados cânticos dos degraus ou subidas. Eram os Salmos 120 a 134 que, por seu tom animado e por seu caráter mais nacional, eram ideais para essas ocasiões.
Já citamos integralmente o Salmo 122, que vivamente expressa os sentimentos de um peregrino israelita ao dirigir-se à cidade, cujas maravilhas de todo tipo ele pondera com orgulho. Por sua descrição, podemos imaginar o coração daquelas multidões judaicas que em tais ocasiões se deslocavam por todos os caminhos.
Um mês antes da festa, os judeus tinham o cuidado de colocar as estradas em bom estado e de fazer reparos nas pontes. Nos arredores de Jerusalém, renovavam a pintura dos sepulcros (ou também os cercavam) para torná-los mais visíveis e evitar que os peregrinos, tocando-os distraidamente, ficassem legalmente impuros.

A MULTIDÃO QUE ACORRIA À CIDADE SANTA NO PERÍODO DAS FESTAS

Na Cidade Santa, eram preparadas as estalagens e hospedarias e acumulavam-se provisões para receber dignamente os irmãos que vinham de distantes pontos da Palestina e do Império Romano. Mas onde hospedar tantos peregrinos, cujo número alcançava, às vezes, vários milhões na Festa da Páscoa?
O próprio historiador Flávio Josefo chega a mencionar que houve uma época em que três milhões de peregrinos foram a Jerusalém para a Festa da Páscoa. Em outra passagem, ele diz que o número de cordeiros imolados para o salão de banquetes do dia 14 de Nisã foi de 256 mil, e como normalmente se contavam dez peregrinos para cada cordeiro pascal, teríamos a soma de dois milhões e quinhentos e sessenta e cinco mil peregrinos em Jerusalém.
Contudo, com relação a esse detalhe da hospedagem, temos de lembrar, em primeiro lugar, que as casas da cidade abriam hospitaleiramente as portas para os peregrinos e que as aldeias mais próximas também se preparavam para recebê-los; além disso, mesmo que algumas se tornassem incapazes de abrigar uma multidão tão grande, muitas tendas eram armadas nos descampados ao redor da cidade. Portanto, para ninguém faltava abrigo provisório.
A festa era inaugurada no dia quatorze de Nisã, ao cair da tarde, com um solene banquete em que se comia o cordeiro pascal. O dia quinze era especialmente o grande dia da Páscoa; celebrava-se como um Sábado de rito superior (Êx 12.16; Lv 23.7), e eram oferecidos a Deus sacrifícios de natureza especial. No dia dezesseis, ocorria uma regozijada cerimônia, chamada de Omer, que atraía grande número de espectadores. Consistia na consagração ao Senhor das primícias das colheitas (Lv 23.10).
Na tarde do dia quinze, quando o Sol se punha, três homens, escalados antecipadamente, saíam com a sua foice e a sua cesta e iam cortar, em campo previamente indicado, normalmente no vale de Cedrom, um feixe de cevada que, em seguida, levavam ao Templo. No dia seguinte pela manhã, as espigas eram debulhadas; os grãos, depois de ligeiramente tostados, eram moídos com grandíssimo esmero e, com uma parte da farinha misturada com azeite, era feita uma massa, da qual se queimava um punhado no altar dos holocaustos.
Os cinco dias entre o dia dezessete e o vinte e um de Nisã eram considerados festivos. No dia vinte e dois, o último, era observado um descanso como no dia quinze, mas celebrado com menor solenidade. Os peregrinos não eram obrigados a permanecer em Jerusalém durante o oitavo dia; podiam ir embora a partir da manhã do dia dezessete, e muitos usavam desta permissão.
Tomada ao pé da letra a breve nota cronológica de Lucas relativa a José e Maria - E, regressava eles, terminados aqueles dias (Lc 2.43) -, parece que a família de Jesus não pensou na volta senão depois do dia vinte e dois de Nisã, o que, por outra parte, está mais de acordo com seus piedosos costumes. Deve ter sido, pois, na manhã do dia vinte e três quando, ao voltarem para a Galileia com a caravana de que fazia parte, que José e Maria se deram conta de que Jesus havia permanecido em Jerusalém. Este foi um ato deliberado, premeditado, da parte de Jesus, que ele mesmo explicou a razão.
No primeiro momento, nem Maria nem José notaram a ausência do menino, cuja conduta nunca havia sido para seus pais motivo da mais leve inquietude. Logo, ele não tinha necessidade de ser continuamente vigiado; pelo contrário, merecia inteira confiança. Além disso, é preciso ter assistido à partida de uma numerosa caravana oriental para constatar a confusão que costuma reinar em torno disso. Múltiplos grupos se formam e se desfazem; homens, mulheres, crianças e animais de carga se agitam em confusa mistura; ouvem-se gritos ensurdecedores de pessoas que se chamam e se procuram mutuamente; tudo é um ir e vir entre bulício e agitação. Finalmente, começa a partida. Muitos idosos e mulheres montam sobre seus asnos; os homens e os jovens caminham a pé. Cem incidentes retardam ou aceleram a marcha. As crianças, que no princípio estavam ao lado do seu pai ou da sua mãe, unem-se ao grupo de amigos ou vizinhos.

JESUS ENTRE OS DOUTORES

Só mais tarde, quando os viajantes pararam para passar a noite, e os membros de cada família se reuniram em um acampamento comum, é que Maria e José puderam perceber o desaparecimento de Jesus. Depois de o terem procurado em vão de grupo em grupo, entre parentes e conhecidos, decidiram voltar a Jerusalém. Mas não devem ter empreendido aquela triste viagem imediatamente, e sim no dia seguinte, pela manhã; de outro modo, teriam corrido o risco de cruzar, sem vê-lo, com aquele a quem buscavam.
Ao longo da caminho, fizeram ansiosas pesquisas, olhando por todas as partes, informando-se com as pessoas que passavam. As buscas prosseguiram depois na cidade. Horas dolorosas, durante as quais o coração de Maria deve ter sentido profunda dor.
Por fim, no terceiro dia, ao contar a partir daquele que começaram a viajar para voltar a Jerusalém, José e Maria acharam Jesus no Templo; ou seja, em uma das várias construções que rodeavam o santuário e serviam para diversos usos, como, por exemplo, para os cursos acadêmicos dos rabinos. Ali, segundo a expressão de Lucas, o menino estava assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os (Lc 2.46), mas não como mestre, em lugar elevado, segundo uma errônea interpretação tem atribuído e divulgado, e sim ao modo dos discípulos, no chão, conforme o costume oriental (At 22.3), nos espaços que os venerados rabinos deixavam livres, colocados em semicírculos.
Tem-se tentado formar a lista dos doutores mais famosos daquela época, que podem ter sido testemunhas da cena com que tão expressivo termo Lucas se refere. Mas só tem-se chegado a vagas conjeturas, que não têm senão um interesse muito secundário, tão-somente de erudição.
Nesse episódio, Jesus escutava atentamente as graves palavras que os doutores trocavam entre si e com os assistentes, propondo-lhes em seguida questões com acento de graciosa modéstia: o qual não destoava certamente dos costumes de então, a julgar por várias passagens do Talmude, em que se nos apresentam os rabinos discutindo com seus discípulos, perguntando-lhes e incentivando-os a proporem observações e réplicas, aos quais eles respondiam.
Facilmente, podemos imaginar como Jesus se envolveu na discussão. Interrogado talvez por um doutor, [Leia mais sobre esta conversa, AQUI] satisfez a este plenamente com suas respostas. Iniciou-se então um vivo diálogo entre os dois; outros doutores tomaram parte no diálogo, e a sabedoria de Jesus se manifestou cada vez com maior brilho naquele torneio intelectual, cujo objetivo era, sem dúvida, a explicação de passagens difíceis dos livros sagrados.
Depois de ter respondido, chegou a vez se Jesus perguntar, assombrando os assistentes, tanto pela agudeza de suas perguntas como pela habilidade de suas respostas. Nossa piedade gostaria de conhecer o tema geral dessa espécie de argumentação na qual Jesus teve um papel tão brilhante, mas o Espírito Santo não quis satisfazer a nossa curiosidade neste particular, e não devemos cair na indiscrição de levantar hipóteses que não conduziriam a nada.
Neste aspecto, os escritos apócrifos procederam sem escrúpulos. O evangelho apócrifo de Tomé diz que o menino se pôs a dizer aos rabinos o número das esferas e corpos celestes, sua natureza e suas operações; que lhe explicou a física, a metafísica, a hiperfísica, a hipofísica e muitas outras coisas mais. Provavelmente, não foi isso. Mas é bom deixar claro que todos os que o ouviam admiravam a sua inteligência e respostas (Lc 2.47). As testemunhas daquela cena ficaram admiradíssimas diante da inteligência daquele menino e das palavras que ele pronunciava com tanta clareza. O termo original em grego para admiravam significa ficaram fora de si.
Grande também foi a admiração de seus pais quando o viram no meio daquela séria assembléia e desempenhando tal papel, pois conheciam suas reservas e seus silêncios habituais, e o cuidado que Jesus tinha até então de ocultar sua natureza superior. Como nunca ele havia se manifestado daquela maneira, não estavam preparados para o espetáculo que de improviso se ofereceu à sua vista.
Uma doce queixa escapou do coração de Maria; mas não podemos qualificá-la de reprovação, pois Maria se contentou em deixar que os próprios fatos falassem: Filho, por que fizeste assim para conosco? Eis que teu pai e eu, ansiosos, te procurávamos (Lc 2.48).

JESUS E O OFÍCIO QUE ELE DEVERIA EXERCER

A esta dupla pergunta, Jesus respondeu com outras duas: Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai? (Lc 2.49) Com estas palavras de insondável profundidade, Jesus expôs respeitosamente à sua mãe a razão misteriosa de sua conduta durante os três dias que havia transcorrido. Em outras palavras ele lhes disse: "Vocês não sabiam? Não sabem melhor do que ninguém quem eu sou e que missão como Messias e como Filho de Deus devo exercer?"
Jesus também manifestou estranheza. Surpreendeu-se de que aqueles seres tão unidos a ele pelos laços mais estreitos, o de mãe e de pai adotivo, não o entendessem. Qual era seu dever máximo, superior a todos os outros, no que concernia à sua conduta pessoal? Ele resumiu: Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?
Conforme a interpretação constante de exegetas e teólogos, Jesus atribuiu aqui a Deus o título de Pai no sentido literal e restrito, em sentido único. O fato é inegável, e não se consegue entender por que não teríamos de dar a este título, a partir daqui, o valor que tão normalmente ele tem no decurso da história evangélica. Desde as primeiras palavras que dele conhecemos, Jesus se proclama Filho de Deus, como tantas outras vezes o fará mais tarde (João cita outras várias expressões do Salvador, que têm estrita afinidade com esta em João 8.29; 12.49).
Maria acabava de mencionar o pai adotivo de Jesus: Eis que teu pai e eu, ansiosos, te procurávamos. Mas Jesus se referiu a um Pai infinitamente mais elevado, o único que correspondia à realidade dos fatos, conforme nos tem ensinado Mateus e Lucas no decurso de sua narrativa. Com estas sublimes palavras, Jesus esclareceu o motivo pelo qual ele tinha ficado em Jerusalém: assuntos ligados diretamente a seu Pai.
Maria e José possuíam sobre Jesus direitos muito legítimos, mas muito acima deles estavam os direitos de seu Pai, e estes eram os que traçavam o dever supremo, que às vezes exigiam dele certa independência, mesmo tendo ele respeito para com aqueles que lhe eram mais caros depois de seu Pai celestial.

O ESPANTO DE JOSÉ E DE MARIA

Quando Maria e José ouviram esta resposta, o assombro deles aumentou. O escritor sagrado acrescenta: E eles não compreenderam as palavras que lhes dizia (Lc 2.40). Contudo, diante disso tudo, voltamos a repeti-lo, eles conheciam perfeitamente a origem e a natureza divina de Jesus, como também sua vocação messiânica. Mas não lhes havia sido revelado ainda o plano divino da Redenção em todo o seu conjunto. Os detalhes concretos deste plano, tal como ia realizar-se na vida de Cristo, permaneciam para eles um mistério, até que pouco a pouco a luz brilhou em seu espírito. Consequentemente, vimos que eles não conseguiram atingir toda a extensão, toda a profundidade das palavras que Jesus lhes dirigiu quando o acharam em meio aos doutores. Nova prova de que, em seu desenvolvimento exterior, não havia nada de maravilhoso, de milagrosamente extraordinário.
Jesus nunca havia pronunciado palavras tão significativas. Mas com que piedoso respeito José e Maria recolheram aquelas palavras da boca do filho e que grande alegria sentiram ao acharem-nas dignas daquele de quem se diria mais tarde: Nunca homem algum falou assim como este homem (Jo 7.46)! Pelas palavras de Jesus, podemos vislumbrar a profundidade de sua alma. Nelas podemos ver, conforme se tem reconhecido muitas vezes, o programa íntegro de seu futuro ministério, de sua missão como Messias. Elas têm caráter marcadamente profético.
Sem este quadro delicado, não teríamos podido suspeitar a trajetória que o desenvolvimento do Salvador seguiu nem os atrativos intelectuais e morais com que ele edificava os que viviam ao seu redor.
Lucas terminou esta narração com duas reflexões dignas de nota. A primeira foi: e desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito (Lc 2.51a), que resume, em termos muito bem expressivos, a obediência do Verbo encarnado, durante os dezoito anos que ainda haveriam de transcorrer. Não poderíamos dizer que o evangelista, ao escrever estas palavras, quis deixar bem claro que não havia nelas a mais ligeira atitude de insubordinação no ato que acabava de contar? Sua segunda reflexão nos leva a penetrar de novo na alma de Maria, para nos lembrar que ela guardava no coração todas essas coisas, ou seja, ela meditava continuamente sobre isso.
E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em
graça para com Deus e os homens (Lc 5.52).

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Filipenses 1:9-11

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