Costumes Bíblicos: A CAMINHO DE JERUSALÉM

Israel Institute of Biblical Studies

A CAMINHO DE JERUSALÉM

Canto sudeste do Monte do Templo
(do Vale da Missão abaixo
do Monte das Oliveiras),Jerusalém, 
Terra de Israel. Incrível construção
do Monte do Templo.
O monte das Oliveiras é mencionado poucas vezes no Antigo Testamento: em 2 Samuel 15.30, na rebelião promovida por Absalão, que obrigou Davi a fugir de Jerusalém; em 1 Reis 11.7 e 2 Reis 23.13, de forma indireta, por ocasião do sacrilégio cometido por Salomão, que ordenou ali a edificação de templos em honras às divindades pagãs, às quais suas mulheres prestavam culto; em Zacarias 14.4, onde o profeta revela que esse será o lugar de onde o Senhor virá para livrar o seu povo fiel de poderosos inimigos. Nos evangelhos, está estritamente relacionado aos acontecimentos dos últimos dias da vida de nosso Senhor.
O cortejo que acompanhou Jesus desde Betfagé até o templo estendeu-se por todo o cume e pela encosta ocidental do monte das Oliveiras, que, pela sua importância, merece que lhe dediquemos uma breve descrição.
O nome do monte não mudou desde os tempos de Davi e Zacarias. Os árabes cristãos e muçulmanos chamam-no Djebel et-Zeitum, que significa precisamente monte das Oliveiras. É também chamado em árabe, Djebel et-Tur, a montanha, pela excelência dos arredores de Jerusalém. O nome provém, evidentemente, das muitas oliveiras que cresciam na região.
Na época de Jesus, o monte devia estar todo coberto de árvores, mas desde há muito tempo é quase despido de vegetação. Contudo, ainda restam, particularmente em sua base, não somente oliveiras, mas também romãs, figueiras, amendoeiras, abricoteiros e algarobeiras. Há também ali abundância de palmeiras.
Na parte inferior da vertente ocidental, já desde muitos séculos, há uma grande concentração de sepulcros judeus, pois tais israelitas esperavam (de acordo com a tradição) ser os primeiros a participar da ressurreição dos mortos que acontecerá no dia do Juízo, no vale de Jeosafá (Jl 3.12), identificado por eles como vale de Cedrom. Já a parte superior da colina está coberta de monumentos cristãos de diversas épocas.
O monte das Oliveiras une-se ao norte de Jerusalém, perto da aldeia de Chafat, com a aresta central das maciças montanhas da Judeia. Do lado leste, está separado da Cidade Santa apenas pela profunda cavidade do vale de Cedrom. Da parte alta da cidade, pode-se ver claramente o pequeno e elegante grupo de montanhas. É uma das primeiras visões para quem se afasta das paragens de Jerusalém. Distinguem-se três elevações principais, em forma de pequenos montes, separados  por ligeiras depressões. A do norte a mais elevada, etá a 830 metros acima do nível do Mediterrâneo; a do meio, a 820; a do topo, diante de Jerusalém, a 818 (1.212 metros acima do mar Morto).
Há hoje três caminhos - com certeza já existentes nos tempos de Jesus - que conduzem de Jerusalém a Betânia. O mais usado pelos pedestres é o do norte. Começa na chamada Porta de Estêvão e, subindo diretamente ao topo da colina, desce até Betânia, que se encontra na vertente oposta.
Para animais de montaria, é muito escarpado. O segundo, que se separa do anterior por trás do jardim do Getsêmani, é ainda mais inclinado e passa perto do lugar chamado Dominus Flevit, onde, segundo a tradição, Jesus chorou por Jerusalém. Nenhum desses dois caminhos, portanto, serviria a um cortejo. Resta, pois, o terceiro, que talvez correspondesse ao caminho atual e também não era muito apropriado para transporte - e isso desde Jericó até Jerusalém, em direção a Betânia. Depois de deixar para trás a última aldeia, tal caminho contorna a ladeira ocidental do monte das Oliveiras, seguindo em direção a sudoeste, estendendo-se para o nordeste e deixando à esquerda o monte do Escândalo.(Provavelmente o Monte do sermão) As caravanas podiam espalhar-se por ali folgadamente.
Providenciando o jumentinho
O cortejo que desde Betânia acompanhava o Salvador a Jerusalém não demorou, segundo os evangelhos sinópticos, a chegar diante da aldeia seguinte, talvez um simples vilarejo chamado Betfagé (casa dos figos verdes), cuja localização exata ainda não foi identificada. Nem os escritos do Antigo Testamento nem Josefo mencionam Betfagé. Somente o Talmude faz referência a ele com certa frequência, mas sem determinar com precisão o lugar. Outras citações aparecem em antigos documentos cristãos. Mas, pelos textos dos evangelhos, podemos concluir que Betfagé ficava perto de Betânia e da parte mais alta do monte das Oliveiras , entre essas duas localidades.
Em 1877, foi descoberto o lugar, ao norte de Betânia, na vertente oriental da colina, não muito longe do cume. Algum tempo depois, os padres franciscanos reedificaram no local a capela construída no tempo das Cruzadas. É possível que esse seja o lugar primitivo de Betfagé, como se pensava na Idade Média.
Quando chegou diante da pequena aldeia, Jesus ordenou a dois de seus discípulos:
Ide à aldeia que está defronte de vós; e, logo que ali entrardes, encontrareis preso um jumentinho, sobre o qual ainda não montou homem algum; soltai-o, e trazei-mo. 
E, se alguém vos disser: Por que fazeis isso? dizei-lhe que o Senhor precisa dele, e logo o deixará trazer para aqui. Marcos 11:2,3
É notável a forma como Jesus se expressou, não só pela precisão dos pormenores, mas também pelo tom de autoridade. Falava como o verdadeiro Messias - exercendo o direito de poder requisitar qualquer coisa - e revelava a si mesmo como Senhor e profeta.
O asno criado na Palestina continua
sendo hoje tão útil
como nos tempos bíblicos
Não há dúvidas de que ele sabia, por meio de sua virtude e de presciência sobrenatural, o que ia acontecer, pois não é provável que ele e o dono da jumenta e do jumentinho tivesse estabelecido acordo prévio, como alguns imaginam. Os evangelistas, em situações semelhantes, dão-nos a entender com clareza que Jesus realmente profetizava (Mt 21.2; Mc 14.2; Lc 19.30).
Será que Jesus conhecia pessoalmente o proprietário dos animais? Seria este um de seus discípulos? Impossível, porque o Salvador mantinha havia muito tempo um bom relacionamento com os seus amigos de Betânia.
Eis um detalhe muito significativo: um jumentinho, sobre o qual ainda não montou homem algum. Na Antiguidade, assim como no mundo pagão e entre os judeus, os animais destinados ao uso sagrado eram colocados à parte, para que fossem dignos do ofício (Nm 19.2; Dt 21.3; 1Sm 6.7).
Tudo foi preparado providencialmente, conforme o Salvador havia predito. Assim, os dois discípulos encontraram o jumentinho preso fora da porta, entre dois caminhos, e o soltaram (Mc 11.3). (Talvez o evangelista estivesse se referindo ao caminho que cercava a propriedade ou ao atalho que ia da casa à rua  principal.)
Nesse momento, aproximaram-se alguns vizinhos e também o proprietário e perguntaram aos enviados de Jesus: Que fazeis, soltando o jumentinho? (Mc 11.5). Os discípulos responderam tal como o Mestre os havia instruído, e, por causa disso, ninguém lhes criou obstáculos. Pelo contrário, deixaram que levassem o animal.
É notável o procedimento de nosso Senhor. Ele não se contentou em permitir que os seus amigos e a multidão lhe rendessem a mais esplêndida homenagem, mas, com a ordem que deu aos dois apóstolos, tomou a iniciativa de seu triunfo. Foi por vontade própria que resolveu entrar solenemente em Jerusalém. Por isso, organizou os preparativos necessários, sendo o primeiro deles o animal que montaria, pois não cairia bem, em circunstância tão solene, entrar a pé na cidade.
Que meio de transporte para um vencedor, para o triunfante Messias, o maior personagem da história! A escolha do animal foi um ato simbólico, que expressava uma verdade importantíssima a respeito do ideal messiânico. Um rei puramente temporal, ou seja, o Messias, tal como imaginado pela maioria dos judeus, faria a sua entrada triunfal em sua cidade montado em um bravo alazão e rodeado por magnífica escolta de capitães e soldados, ao som de trombetas e com bandeiras estendidas. O verdadeiro Messias, porém, obteve um triunfo real, embora humilde, com manifestações pacíficas, propósitos e resultados extremamente espirituais.
Foi por esse motivo que Jesus entrou em Jerusalém montado em um simples jumentinho. Ele o fez como o Príncipe da Paz (Is 9.6), como o Senhor de um reino espiritual, como o Salvador das almas. Assim, cumpria-se a vontade do Pai expressada muitos séculos antes na mensagem do profeta Zacarias (Zc 9.9), que Mateus e João citam em seus evangelhos (Mt 21.4,5; Jo 12.14,15).
João registra apenas as palavras essenciais. O registro de Mateus é mais extenso, com mais liberdade de expressão, aproximando-se mais do texto hebreu: Dizei à filha de Sião: Eis aí te vem o teu Rei, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de animal de carga (Mt 21.5). O texto citado por Mateus, traduzido literalmente do hebraico é:
Salta de alegria, filha de Sião! Lança gritos de júbilo, filha de Jerusalém!
 Eis aqui vem a ti o teu rei. É justo e protegido [de Deus], 
simples, e cavalgando sobre um jumento 
e sobre um jumentinho, filho da jumenta. (Zc 9.9)
A expressão dizei à filha de Sião usada por Mateus não pertence ao texto de Zacarias. O evangelista a extraiu de Isaías 62.11, usando-a como introdução. João, por sua vez, preferiu: Não temas, ó filha de Sião! (Jo 12.14). As expressões filha de Sião e filha de Jerusalém significam, poeticamente, os habitantes da Cidade Santa.
Quanto ao seu conteúdo, a profecia expressa com total clareza, como já dissemos, o caráter simples e pacífico da realeza do Messias, que, ao receber as homenagens de seus súditos, rejeitou a pompa mundana e não admitiu outra grandeza, senão a da paz e da simplicidade.
A menção à jumenta e ao jumentinho é importante na profecia de Zacarias, pois destaca o caráter humilde e sem glória do triunfo de Cristo. Mateus e João insistem neste aspecto: a montaria nada tinha que anunciasse intenções violentas. Convém lembrar, no entanto, que os jumentos dos países orientais são, em geral, maiores, mais fortes e de aspecto mais elegante que os de outros continentes. Desde os primeiros tempos da história de Israel, esses animais serviam de montaria para líderes do povo, para os ricos e para as pessoas de classe inferiores (Jz 5.9,10; 10.2-4; 2Sm 16.2).
Observe também que Mateus é o único que menciona duas vezes a jumenta e o jumentinho (Mt 21.2,7). Ainda que os outros evangelistas mencione apenas o jumentinho, não há dúvidas de que a sua mãe também foi levada, por precaução, para que o jovem animal não se assustasse quando montado, pois ainda não fora domado.
Para que os animais se apresentassem de forma digna no papel que iam desempenhar, os discípulos estenderam mantos sobre eles, que normalmente eram de cores fortes. Depois, ajudaram o Mestre a sentar-se sobre o jumentinho. Então, começou o desfile propriamente dito.
Os doze e os discípulos mais próximos rodeavam o Salvador. A multidão aumentava a cada momento, por todos os lados. Era composta principalmente de estrangeiros que haviam chegado a Jerusalém para a Páscoa e que, como já vimos, preocupavam-se com a chagada de Jesus.
Os que haviam acompanhado o Senhor desde Jerusalém espalharam a notícia de que ele ficaria em Betânia. Assim, não é de estranhar que muitos partidários da Galileia, da Peréia e de outras regiões rumassem para a pequena aldeia, movidos pelo desejo de vê-lo e adorá-lo. Todos esperavam que Jesus se auto-proclamasse como o Messias. A curiosidade de ver Lázaro, cuja ressurreição havia provocado todo aquele entusiasmo, também levou muita gente a Betânia. Diante disso, podemos supor que o cortejo era formado por centenas ou até milhares de pessoas.
Porta Dourada,
por onde o Messias
entrou em Jerusalém
Hosana! (Jo 12.13). Bastou Jesus iniciar a caminhada, e a aclamação começou. Foram improvisadas afetuosas cerimônias. Os que se encontravam mais perto do divino Mestre, imitando os apóstolos, estenderam os seus mantos pelo caminho, como tapetes. Foi assim que fizeram em outros tempos os judeus de Susã em honra a Mardoqueu (Et 8.15).
À margem do caminho por onde seguia o cortejo, havia oliveiras, figueiras e outras árvores e arbustos, dos quais todos tiravam ramos, que eram agitados alegremente. O chão estava coberto de folhas e de ervas verdes. Tratava-se de uma manifestação grandiosa, comparável à que era dedicada aos reis vitoriosos.
Uma alegria santa reinava em todos os corações e se manifestava em expressões externas e simbólicas, conforme o costume oriental. Lucas indica o momento preciso em que os aplausos e as aclamações se associaram aos atos, para dar-lhes significação e realçar a sua força.
Isso aconteceu "perto da descida do monte das Oliveiras", depois de Jesus haver passado o cume e andado algum tempo pelo caminho da encosta ocidental. A partir de uma curva do caminho, via-se de repente parte da cidade que se eleva sobre a atual colina de Sião, com a sua faixa de muralhas.
Um pouco mais adiante, surge a cidade inteira em todo o seu esplendor: em primeiro ângulo, o templo, reluzente de ouro, resplandecente de mármore branco e rodeado por suas magníficas galerias; atrás de templo, um esplêndido conjunto de palácios, jardins, edifícios de várias formas e casas que se apóiam umas nas outras; à direita e à esquerda, uma grandiosa ondulação de colinas arborizadas.
Jerusalém hoje não é mais que um pálido reflexo de sua antiga beleza, mas vista desse mesmo lugar apresenta ainda uma paisagem esplêndida, inesquecível. Quão bela não seria na ocasião, quando era considerada até pelos inimigos uma das mais notáveis maravilhas do mundo! Era rodeada por muros e por torres, símbolos de sua força, que a envolviam como um diadema. Por coincidência, a visão do grandioso espetáculo, realçado ainda mais pelos encantos da primavera, fazia transbordar o entusiasmo da multidão que seguia o Messias.
Havia ainda outro motivo que os evangelistas mencionam para tais aclamações: a lembrança dos milagres operados pelo Salvador - e, particularmente, a ressurreição de Lázaro, o mais destacado de seus prodígios (Lc 19.37; Jo 12.17).
Os evangelistas assinalaram os gritos de aclamação do povo. Segundo Mateus, foi: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas! (Mt 21.9), Segundo Marcos: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino de Davi, nosso pai! Hosana, nas maiores alturas! (Mc 11.9,10) Segundo Lucas: Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas! (Lc 19.38) Segundo João: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! (Jo 12.3)
Com ligeiras variantes, são aclamações idênticas, dirigidas ora a Jesus, para aclamá-lo como o Messias de Israel e dar-lhes as boas-vindas, ora ao Pai, que o enviara para restabelecer espiritualmente o reino do filho de Davi, que desde os tempos antigos foi anunciado pelos profetas. A maior parte dessas aclamações foi extraída de Salmos 118.25,26 (do texto hebraico), que com frequência eram aplicadas ao Messias nos escritos dos rabinos e entoadas enquanto o povo rodeava o altar dos holocaustos durante a Festa dos Tabernáculos.
Porta de Jaffa. Na parte inferior,
 há uma pequena 
abertura que alguns chamam
 de "o fundo de uma agulha"
O grito Hosana, que como o Amém e o Aleluia, tem lugar na liturgia cristã, é duas palavras que literalmente significam: "Salve, pois!" No início, era uma súplica que o povo fazia a Deus para obter proteção, mas depois perdeu esse significado e passou a ser uma simples exclamação que expressava o desejo de felicidade e prosperidade. Depois de saudar o Messias, o hosana subia a Deus, que reina nas alturas, isto é, nos céus. Era dessa forma que o povo agradecia a Deus ter enviado o Cristo. A ideia mais importante dessas cordiais aclamações está contida nas seguintes frases: "Bendito o rei de Israel" e Bendito o Reino de nosso pai Davi", que sem dúvida possuem significação messiânica. O seu significado espiritual é também visível. Lucas teve o cuidado de enfatizá-lo: Toda a multidão dos discípulos, regozijando-se, começou a dar louvores a Deus em alta voz [...] dizendo: Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! (Lc 19.37,38)
O entusiasmo da multidão cresceu ainda mais quando o cortejo que vinha de Betânia e de Betfagé se reuniu com o cortejo que saía de Jerusalém, composto de muitos estrangeiros, todos com ramos de palmeiras nas mãos (Jo 12.13) - uma referência à Festa dos Tabernáculos -, para mostrar a Jesus que o reconheciam como o Rei-Messias. Tanto entre os judeus quanto entre os pagãos, os ramos de palmeiras eram usados nas manifestações populares em honra dos reis e generais vitoriosos.

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Filipenses 1:9-11

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